QUE TAL UMA SESSÃO PSICOTERAPÊUTICA VIA SKYPE OU UM APLICATIVO CONTRA A DEPRESSÃO, ANSIEDADE, OU INSÔNIA?

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 QUE  TAL  UMA  SESSÃO  PSICOTERAPÊUTICA  VIA SKYPE OU UM

 APLICATIVO CONTRA A DEPRESSÃO, ANSIEDADE, OU INSÔNIA?

 

 

 

Vocês sabiam que já existem cerca de 1.490 aplicativos para controle de ansiedade, 2.193 aplicativos para problemas relacionais, cerca de 948 para lidar com depressão, e mais de 4.000 para terapia cognitiva?

Existe muito dinheiro sendo aplicado por grandes incorporações para a criação de aplicativos de saúde mental e saúde geral. É a segunda onda de novidades virtuais que adentra e disputa o mercado das psicoterapias. A primeira onda foi a generalização dos atendimentos via Skype, Face Time e telefone, inicialmente reservados para situações excepcionais, quando terapeuta ou paciente viajavam e o atendimento se fazia necessário. Atualmente, há terapeutas que apenas atendem via Face Time, e que advogam não sentir necessidade da presença física do cliente.

Quanto aos aplicativos, como saber se eles ajudam? Um artigo na revista Psychotherapeutic Networker[1], de 2016, avalia esses aplicativos e, apenas para ilustrar, farei um breve resumo. Existem, basicamente, 5 tipos de aplicativos, quase todos oferecendo informações cognitivo-comportamentais:

  • Rastreadores de humor: pretendem ajudar o cliente a associar determinados estados de humor com pensamentos e ações decorrentes: Ex: Optimism, Mood 24/7, Moody Me, etc.
  • Eliciadores de atividade: oferecem, tipicamente, ferramentas para lidar com desafios do dia a dia. Ex: SuperBetter, Reducing Stress, Being Awesome, Sleepio para insônia, Pacifica,
  • Práticas de meditação: oferecem dicas para meditar, ou meditações guiadas. Existem cerca de 1147 aplicativos com este objetivo, quase um modismo cultural. Ex: Headspace (muito bom), Smiling Mind, etc.
  • Interações em tempo real: oferecem suporte emocional de terapeutas, coches, ou voluntários, normalmente cobrando uma taxa por hora ou mensal. Ex: Talksspace, Joyable, 7 Cups of Tea, etc.
  • Auxílio tecnológico – são aplicativos sofisticados, futurísticos, que utilizam biossensores para coletar informações fisiológicas e emocionais do usuário, através de realidade virtual, badanas para monitorar atividade cerebral, padrões de movimento, padrões de interação, marcadores de emoção, etc. Ex: Muse, MoodRhythm, etc. Expressões como “fenótipo digital”[2] começam a surgir, mostrando como a tecnologia pode ajudar a monitorar a saúde humana, física e mental.

Em geral, os aplicativos são baixados gratuitamente, mas logo começam a encorajar o cliente a comprar outros serviços, por exemplo, uma interação com um assistente real, que pode ser terapeuta, ou não.

Dentre os principais senões ao uso destes aplicativos está a questão da privacidade e do sigilo e o fato de ainda serem exíguos os estudos sobre sua utilidade. Sem dúvida, vivemos numa era “Big-Brother”[3], onde todos sabem tudo, inclusive os problemas íntimos, e saúde mental dos outros. Imaginem as discriminações que podem ocorrer, se estes traços digitais começarem a comandar as escolhas de funcionários, parceiros afetivos ou preços de seguros-saúde?

 

Será que a psicoterapia está com seus dias contados?

 

Talvez esta pergunta represente uma falsa dicotomia: ou aplicativos ou psicoterapia. Por que não, uma psicoterapia que possa também utilizar aplicativos para auxiliar seu cliente? Pessoalmente costumo indicar o Headspace, um aplicativo de meditação idealizado por Andy Puddicombeum[4] ‒ um inglês, ex-monge budista.

Há pessoas sem acesso à psicoterapia e que podem sim se beneficiar de um aplicativo com informações comportamentais-cognitivas. É o caso do aplicativo PTSD Coach, para estresse pós-traumático, criado pelo Departamento de Defesa americano para veteranos de guerra.

Também há pessoas que, mesmo com acesso à psicoterapia, talvez prefiram mais os aplicativos ao contato humano face a face. Eles apresentam certas vantagens, a saber:

1 – Conveniência: o tratamento pode ocorrer em qualquer lugar a qualquer hora, inclusive 24 horas por dia;

2 – Anonimato: não envolve outras pessoas;

3- Pode representar um primeiro passo para buscar ajuda. Antigamente eu prescrevia alguns livros de autoajuda para que o cliente percebesse que o problema não era só dele e que podia ser ajudado. Atualmente, talvez os aplicativos sejam mais interessantes e sirvam ao mesmo objetivo.

4 – Baixo preço: mais baixo, pelo menos, do que uma psicoterapia com um terapeuta bem qualificado;

5 – Atendem várias pessoas ao mesmo tempo.

6 – São interessantes: talvez mais do que algumas terapias, com seus sons, cores e recursos tecnológicos.

 

Alguns estudiosos predizem que os aplicativos acabaram por incorporar as psicoterapias, uma vez que o mercado de trabalho é apelativo e já começa a oferecer bons salários a psicoterapeutas que trabalharem nesses atendimentos online dentro de seus aplicativos, ou no desenho e programação dos mesmos.

 

O que os aplicativos podem e não podem fazer

 

Aplicativos oferecem informações, não oferecem relações. Nós, humanos somos animais sociais, nossos cérebros operam melhor quando interagimos com os outros. O intercâmbio social muda a qualidade dos nossos neurotransmissores[5], sobretudo os envolvidos com alívio da ansiedade, estresse e depressão. Temos neurônios espelho[6], que captam a emoção dos nosso interlocutores e enriquecem nossa experiência empática.

Sabemos que a maior parte de nossas patologias emocionais surgem em relações de apego, sobretudo as primárias e, pessoalmente, acredito que é também numa relação humana presencial, continente e empática que consiste a mágica da psicoterapia.

Porém não podemos fugir do nosso tempo e creio que lutar contra a tecnologia seja uma batalha perdida. Por isso prefiro conhecer o que existe por aí , compartilhar o que descubro e me adaptar da maneira mais inteligente e ética possível.

Afinal somos, todos nós, aplicativos humanos únicos e específicos, os únicos , aliás,  que podem oferecer informação e relação ao mesmo tempo.

 

[1] Sandmaier, M. (2016) – Left to our own Devices, Psychotherapeutic Networker Magazine/ November-December 2016.

[2] http://www.mobihealthnews.com/43327/harvard-doctors-argue-the-digital-phenotype-will-change-healthcare

[3] https://pt.wikipedia.org/wiki/Big_Brother_(reality_show)

[4]https://www.ted.com/talks/andy_puddicombe_all_it_takes_is_10_mindful_minutes?language=pt-br

[5] http://www.nature.com/mp/journal/v12/n2/full/4001911a.html

[6] http://www.apa.org/monitor/oct05/mirror.aspx