PSICOSOCIODRAMA DA INVEJA – Atire a primeira pedra se você puder!
inveja
Introdução

A inveja é um fenômeno humano universal e atemporal. Faz parte da estrutura do psiquismo humano e atua sobre a cultura humana e a organização social. Ela é um dos maiores tabus da humanidade, talvez apenas equivalente à sexualidade no século XIX.

Proibida pela Bíblia como pecado capital, é um sentimento que tem que ser mantido escondido, o que torna seu estudo difícil e indireto. Iminência parda por trás de ideologias que pregam a igualdade, a inveja tem, historicamente, motivado crimes, políticas e revoluções.

Pois bem, diferentes todos somos; há que se aprender a lidar com essas diferenças. Será que isso é possível? Como se aprende a lidar com as diferenças? Como se convive melhor com a injustiça primordial da existência humana? O que fazer quando sinto inveja? Como lidar com a inveja alheia? Será que provoquei a inveja alheia? Quem me inveja pode me fazer mal, o famoso “olho gordo”? Essas são as questões que me motivaram a pesquisar o tema. Por isso também proponho o psicossociodrama : a inveja, na esperança de não calarmos sobre temas vergonhosos, mas, pelo contrário, percorrermos, respeitosamente irmanados, este árido caminho.

Nunca soube lidar com a experiência emocional da inveja. Nem a minha própria, horrivelmente amargada no interior de meus pensamentos, nem a dos outros, sabiamente negada e exteriorizada com toques de ressentimento e rejeição.

De todas as vivências humanas percebi, consultando vasta literatura ao longo dos últimos anos, que a inveja é a menos estudada e sobre a qual menos se escreveu, sobretudo na psicologia. Só a sexualidade humana foi tão reprimida em outras épocas.

Dizem alguns autores que não há dignidade neste sentimento. Até a raiva e o ódio extremos podem ser explicados por uma razão nobre qualquer, mas a inveja sempre representa um sentimento obscuro, sem justificativa legal, mesquinho e isolado, fútil, escondido como convém aos bandidos, ladrões e assassinos, escórias da raça humana.

E, no entanto, atire a primeira pedra se você nunca a sentiu! Se nunca desejou mal a alguém por algum atributo que nele você admirava. Se jamais evitou situações que o confrontariam com aqueles que exibem qualidades que você não tem, ou nunca tomou partido apenas para não favorecer aqueles que possuíam aspectos que você cobiçava etc. “Praticamente tudo o que traz felicidade estimula a inveja”, diz Aristóteles (2000).

E talvez você também nunca tenha pensado que sem a inveja, e a consequente capacidade de sempre estarmos nos comparando e nos vigiando mutuamente, talvez não tivéssemos o desenvolvimento dos sistemas sociais a que todos pertencemos. Considere também como ela, a inveja, jaz soberana, como eminência parda, por trás das políticas sociais e econômicas e de quase todos os movimentos revolucionários da história da humanidade.

Segundo Helmut Schoeck (1987), há crimes por inveja, políticas baseadas na inveja, instituições elaboradas para regular a inveja e inúmeros motivos para se evitar ser invejado pelos outros.
Calcadas num sentimento de injustiça pelas diferenças (sejam elas quais forem: financeiras, estéticas, filosóficas) e na ideia de que todos deveriam ser igualmente contemplados, muitas políticas de expropriação foram conduzidas. Desde o século XVIII, com o emblemático lema da Revolução Francesa, “Igualdade, fraternidade e liberdade”, até as revoluções socialistas (séculos XIX e XX), apregoa-se a filosofia da igualdade, um ópio para o sentimento de inveja, que ganha força demagógica nessa aparentemente justa indignação.

A inveja, segundo de La Mora (1987), é o maior tabu humano não falado. Todos a sentem, mas poucos admitem, o que torna seu estudo difícil e indireto. Curiosamente, entretanto, quando honrosamente revestida da carcaça ideológica da igualdade, ela se torna o baluarte da justiça humana. Este mesmo autor conclui seu brilhante livro Egalitarian Envy (Inveja igualitária) argumentando pela saudável necessidade da diferença e pelo absurdo de se imaginar que a igualdade possa ser conquistada pela coerção ou demagogia.

Ainda a título de curiosidade e já me aproximando da psicologia e do psicodrama, sabemos que a inveja é um sentimento apreendido no cluster um e exteriorizado maciçamente no cluster três (BUSTOS et al., 1994, p. 362), cluster de papéis simétricos, fraternais e amorosos, com dinâmicas de cooperação, competição e rivalidade. Habitualmente não invejamos reis e rainhas e suas fortunas acumuladas sem trabalho braçal, mas podemos invejar nosso vizinho de porta porque ele comprou um carro novo. A história de Caim e Abel parece ser a metáfora certa ilustrar para esse sentimento.

Inveja: conceito

A palavra inveja vem do latim in-videre, que significa não ver, ou ver enviesado. A inveja se manifesta popularmente no olho gordo, “evil eye”, olho do diabo. Parece que ser visto é central para o tema da inveja, tanto para quem é invejado (é visto) quanto para quem inveja (olha). Esse fenômeno psicológico pressupõe um contexto social: a coexistência de duas pessoas.
Há inúmeras definições do sentimento, que variam de acordo com o aspecto do fenômeno que se quer abarcar:

• Inveja é um tipo de dor psicológica sentida quando, ao nos compararmos a outra(s) pessoa(s), avaliamos que nosso valor, nossa autoestima e nosso autorrespeito estão diminuídos.

• Inveja é a dolorosa observação daquilo que nos falta.

• Sentimos inveja quando outra pessoa tem características superiores às nossas.

• Inveja é um tipo de admiração e amor por aquilo que não se tem.

• Schadenfreude é uma palavra de origem alemã usada também em outras línguas para designar o sentimento de alegria ou prazer pelo sofrimento ou infelicidade dos outros.

• Inveja é o sentimento que nos toma quando observamos o sucesso dos outros.

Em todas as línguas, desde as primitivas até as indo-europeias, arábicas, japonesa e chinesa, há um termo que designa a pessoa invejosa. As sociedades poligâmicas primitivas já possuíam políticas para lidar com a inveja, sobretudo a relacionada à distribuição de afeto e bens de forma igualitária entre esposas e descendentes. Muitos conflitos foram travados pela comparação das desigualdades, muitas superstições e rituais foram elaborados para magicamente conseguir os benefícios desejados (SCHOECK, 1987).

A inveja é, portanto, um fenômeno universal; conceituá-la, entretanto, não é tarefa fácil. Primeiro, ela é usualmente confundida com o complexo sentimento de ciúme, e esta distinção precisa ser feita. Outra dificuldade vem das possíveis gradações desse sentimento. É por aí que se ouve falar de uma “inveja boa”, bem próxima de uma admiração e fácil de ser admitida, em oposição à “inveja ruim”, esta, sim, semelhante à palavra em alemão Schadenfreude, que consiste num verdadeiro tormento diante da boa sorte alheia e um extremo prazer com seu infortúnio.

Inveja e ciúme

Nem sempre é fácil separar inveja de ciúme. Ambos os sentimentos pressupõem interações sociais, comparações entre indivíduos, e são extremamente prejudiciais para as relações.
A inveja em geral se refere a uma relação dual , onde o sujeito sente falta de algo que o outro tem e o desejo de que ele não o tenha. Já o ciúme tem a ver com as relações triangulares e basicamente consiste no medo de perder uma relação para outra pessoa. A inveja prefere destruir enquanto o ciúme visa controlar.

Em ambos os sentimentos existe uma falta. No ciúme a falta se refere ao medo de perder algo ou alguém que você já possui para outrem. Na inveja a falta se refere a algo que você não possui, mas que outra pessoa tem.

Ambos os sentimentos são exteriorizados de forma muito semelhante: são parcialmente negados, mas aparecem indiretamente através do medo de perder, raiva, traição, insegurança, inferioridade, vingança, paranoia etc.

Foster (1972, p. 167) sugere que a inveja provoca o ciúme como contrarreação, como se fossem complementares. Se alguém, por exemplo, sente que sua esposa bonita está sendo invejada, começa a temer perdê-la, sentindo ciúme. O mesmo ocorre para qualquer objeto ou atributo que é desejado: quem tem não quer perder, e quem não tem quer obter, ou, pelo menos, não quer que o outro tenha.

Inveja boa e inveja ruim

Talvez para minimizar o impacto deste sentimento tão vergonhoso, ou para dialeticamente evitar as falsas polaridades entre bom e mau, alguns autores argumentam que a inveja possui, pelo menos, um fator positivo, pois costuma ser um combustível ou motivação extra para conquistar sucesso ou atributos que levem à felicidade.

Para a psicologia analítica de Carl Gustav Jung (1991), qualquer que seja o traço de caráter ou atitude que exista na mente consciente e dominante, seu oposto reina igualmente no inconsciente. O conteúdo reprimido no inconsciente precisa se tornar consciente para produzir uma tensão de opostos e com isso flexibilizar e enriquecer a personalidade.

Byington (2002, p. 21-22) fala do potencial criativo da inveja, que seria apenas uma das funções estruturantes da psique, podendo atuar de forma criativa e propiciar o desenvolvimento saudável da personalidade ou, pelo contrário, tornar-se fixada e passar a atuar na Sombra , de forma inadequada, repetitiva e destrutiva.

Num artigo a respeito da obra de Gonzalo Fernández de La Mora (1987), o autor Eduardo O. C. Chaves (1991) mostra que, frente à possibilidade de que os outros possam ser mais felizes do que nós, é possível assumir uma de três atitudes:

1) Emulação: desejar ser como os outros, agir como eles, possuir as coisas que possuem. Esta atitude é positiva pois propulsiona o progresso, o desenvolvimento humano e estimula a competição.

2) Resignação: aceitar nossa (real ou suposta) inferioridade. Esta atitude é negativa, pois ao se conformar o sujeito deixa de dar uma contribuição para o progresso e o desenvolvimento humano, levando à estagnação. Não promove, todavia, a involução.

3) Inveja: desejar que os outros percam aquilo que têm e que gostaríamos que fosse nosso. Esta postura é somente negativa, pois leva à involução. O invejoso deseja o infortúnio e a miséria

daqueles que inveja, quer que aqueles que lhe são melhores se vejam reduzidos a seu nível.

Resumidamente penso que seja possível usar a inveja como um catalisador de energias na direção dos objetos invejados, mais ou menos como um plano de vida ou ambição. Esta seria a inveja boa, a emulação, que não faz mal a ninguém, nem quem a experimenta, nem aquele que é alvo dela.

O foco deste trabalho não é, entretanto, a inveja benigna, e sim a outra, a que faz sofrer e sofre pelo impacto de observar atributos alheios que apontam para a própria inferioridade e culmina numa impotência pessoal e no desejo de destruir o outro. Meu foco é a chamada “inveja verde”, termo cunhado por Shakespeare em Otelo (1999), referindo-se ao ciúme, provavelmente em alusão à bílis hepática, secreção digestiva viscosa verde-amarelada produzida pelo fígado e tão amarga como este sentimento.

Origens da inveja

Os freudianos, liderados por Freud e Melanie Klein, associam a inveja com a pulsão de morte, cujas origens seriam inatas. Em 1920, com a publicação de Além do princípio do prazer, Freud postula que o funcionamento do aparelho psíquico se baseia na oposição entre duas pulsões básicas: a de vida e a de morte. A pulsão de morte seria onipresente, apresentar-se-ia geralmente fusionada com a pulsão de vida e se manifestaria de várias formas tais como: a compulsão à repetição, a reação terapêutica negativa, a agressividade, a inveja, o narcisismo destrutivo etc.

Para Melanie Klein (1974), as origens da inveja são inatas e derivam da agressão constitucional. Uma carga excessiva de inveja precoce representa uma forma particularmente maligna e desastrosa de agressão inata. Primariamente a criança sentiria inveja do seio e, posteriormente e por deslocamento, passaria a englobar a equação seio/pênis, símbolos de vida. Com a maior integração do ego e o surgimento da culpa e do desejo de reparação, a inveja tende a ceder lugar à gratidão. Se a inveja estraga a fruição do objeto pelo desejo de destruí-lo, a gratidão é, ao contrário, “o fundamento da apreciação do que há de bom nos outros e em si mesmo” (CINTRA; FIGUEIREDO, 2004, p. 133).

Os neofreudianos, como Horney (1967), Winnicott (1975) e Hiles (2007), de forma geral enfatizam menos a importância das forças biológicas sobre a personalidade e destacam o impacto das forças sociais e psicológicas. Eles também minimizam a importância da sexualidade infantil e do complexo de Édipo, sugerindo que o desenvolvimento da personalidade é determinado primordialmente por forças psicossociais, e não psicossexuais.

A inveja, para eles, não é uma agressão gratuita para tudo o que é bom, mas a resposta frágil da criança diante da privação, da crença de que aquilo que precisa está sendo refreado por um outro que não quer lhe dar. A raiva resultante seria um esforço para induzir a mãe a realizar seus desejos, não para destruí-la.

A função evolutiva da inveja

De uma perspectiva evolucionária, a inveja é vista como um importante instrumental na luta por uma vantagem competitiva (HILL; BUSS, 2006). A Teoria da Seleção Natural de Charles Darwin postula a preservação evolutiva de características favoráveis à espécie e a extinção daquelas desfavoráveis.

O processo da seleção natural é inerentemente competitivo. O homem primitivo lutava por comida, abrigo, calor; se outro possuísse estes recursos e ele não, faria de tudo para obtê-los, por conta de sua sobrevivência. Somos equipados filogeneticamente para nos observarmos e competirmos e manifestamos tais atributos em nossas interações sociais. Continuamente lutamos para adquirir recursos ou posições que os outros simultaneamente estão lutando para conseguir. Isso ocorre com a aparência física, com adquirir bens perecíveis e até mesmo com professar ideologias, credos etc.

O uso da comparação social é um instrumento de sobrevivência através do qual os homens podem avaliar se estão em vantagem ou desvantagem na batalha da seleção natural. A inveja teria a função de alertar quando um parceiro rival tem vantagens e mobilizaria o indivíduo em questão a buscar adquirir aquela vantagem para si.

O afeto negativo sentido quando se percebe a vantagem alheia, dizem os autores, resulta de um alarme interno que sinaliza que estamos perdendo a competição (o que em tempos primitivos significaria morte para nós e nossa prole). As pessoas sentem raiva, dor e vergonha, como falarei mais adiante, como se uma injustiça estivesse acontecendo, e tentam de vários modos restabelecer o bem-estar . Muitas amizades são rompidas porque um dos parceiros se sente em desvantagem e prefere ficar distante deste sentimento.

Manter a inveja em segredo é também uma estratégia de defesa, na medida em que admiti-la, além de maximizar os méritos alheios, impossibilita outras estratégias de defesa, como utilizar a fofoca para desonrar o outro, dizer que foi injusto etc.

Quando a inveja acontece?

Cada teoria explicativa da inveja tem sua forma de prever quando ocorrerá um episódio de inveja. Os psicanalistas, de forma geral, acreditam que a inveja é diretamente relacionada à experiência de cuidados primários da criança. Isto porque o senso de possuir atributos, corriqueiramente chamado de autoestima, se opõe ao de ser completamente impotente, sem atributos, sem autoestima.
Richard Smith (2004) em seu brilhante artigo Envy and its transmutations (A inveja e suas transformações), resume as quatro condições necessárias para a ocorrência da inveja:

1) A pessoa invejada é simétrica a nós em boa parte de suas características: idade, nível socioeconômico etc.

2) Esta semelhança gera a sensação de injustiça, “se somos iguais devemos ter as mesmas coisas”.

3) O atributo que o outro possui é de um domínio relevante para nós.

4) Nossas perspectivas pessoais de obter este atributo são muito escassas.

Uma vez que as quatro condições forem atendidas, o episódio de inveja acontecerá, evoluirá e produzirá várias outras emoções (paranoia, ressentimento, vergonha), esvanecendo a sensação inicial de inveja. Por exemplo, se o foco da comparação apontar para uma inferioridade de habilidades, podemos sentir vergonha por essa inferioridade e começar a censurar moralmente a pessoa em questão, atribuindo-lhe desonestidade. Isso desvia o foco da nossa reconhecida inferioridade e nos justifica para agir de forma hostil contra a pessoa invejada. “O mérito inveja os resultados”, segundo sugestão de Montaldi, citado por Smith (2004).

Algumas pessoas que permanecem conscientes de sua inveja decidem trabalhar arduamente para compensar a desvantagem, torná-la menor. Esta, provavelmente, é a saída mais honrosa para lidar com este sentimento. Alternativamente, outras pessoas ficam atoladas no sentimento de inferioridade que a inveja produz e podem desenvolver um quadro depressivo. É muito razoável pensar que invejas mal resolvidas estejam na base de outros quadros psicopatológicos.

Outra configuração que a inveja pode tomar é apelar para calúnias, fofocas ou sabotagem indireta, para diminuir as qualidades da pessoa invejada. Gaiarsa (1978) explora brilhantemente este território e afirma que o mexerico, a intriga e a fofoca são um meio de controle social, na maioria das vezes provocado pela inveja. Chama de “Peste Emocional” a forma sub-reptícia de as pessoas invejosas atuarem, uma vez que não podem admitir sua verdadeira motivação.

Avi Berman (2007, p. 17-32), um psicólogo clínico contemporâneo, conclui, baseado na observação de crianças, que as pessoas que se beneficiam em situações de inveja são aquelas que admitem o sentimento, acreditam em sua capacidade e se acham igualmente merecedoras. Já aqueles que sofrem com esse sentimento e ficam agressivos e destrutivos são aqueles que não reconhecem a inveja, sentem-se incapazes e especialmente merecedores, mais do que seus rivais.

Autoestima, competitividade, inveja e gênero

A competitividade, a autoestima e a inveja aparecem correlacionadas em quase todos os textos que li para escrever este trabalho. Se pensarmos na inveja como uma emoção adaptativa que nos faz competir para sobreviver, ainda assim os teóricos do desenvolvimento emocional humano teriam que nos explicar como se aprende a competir, ou ainda como aprendemos a avaliar nossas reais capacidades para nos compararmos com nossos rivais.

Se uma pessoa se avalia errado, compete errado. De nada adianta ter muitos atributos se a sensação interna é de desvalia e aponta para deficiências. Como introjetamos a noção de quais são nossas reais capacidades, nosso autovalor, nossa autoestima?

Mais ainda, cada cultura imbui seus cidadãos de valores que condicionam os critérios para ser ou não ser aceito, ser ou não ser valorizado. Nossa cultura historicamente patriarcal tem mudado visivelmente, mas alguns traços sutis levam muitas gerações para de fato se instalarem. Carol Gilligan (1982), no livro Uma voz diferente, mostra que ainda hoje existem formas de competitividade diferentes para homens e mulheres. Homens ainda são criados para uma crescente separação dos outros e para alcançar a autonomia e independência, ao passo que das mulheres se espera, primordialmente, que cuidem das relações, sejam amigáveis e fiéis.

Se um homem é competitivo, poderoso e bem-sucedido, está indo de acordo com as expectativas que se tem para ele, ao passo que uma mulher poderosa, autônoma e bem-sucedida é frequentemente ameaçada de abandono por suas iguais, como se caminhasse em direção contrária e traidora.

Também a psicanálise explica essa questão, mostrando que nas fases de individuação-separação da mãe em direção às outras relações e à autonomia, os meninos não experimentam conflitos de gênero. Eles, se tudo corre bem naturalmente, seguem em direção à identificação com o pai e seus papéis sociais. Já as meninas têm que se individuar-separar da mãe, mas ao mesmo tempo permanecer identificadas com suas funções e papéis sociais, o que pressupõe, ao contrário, não diferenciação e intimidade (CHODOROW, 1999, p. 109).

Competir com a mãe significa separar-se da cumplicidade com ela, lutar para ser diferente dela, melhor que ela porém parecida; é uma tarefa psicológica complexa e carrega uma dor e culpa imensas (LERNER, 1990). As mulheres impregnam suas outras relações de gênero com este conflito; por isso, quando a mulher compete, em geral procura uma fórmula menos individualística, mais indireta. O ganha/perde dessas situações é pretendido pelo “todas ganham”, “ganharemos juntas como um time” etc. (NAVARRO; SCHWARTZBERG, 2007). Estilos de luta encobertos, passivo-agressivos, modéstia e humildade têm sido pré-requisitos para a feminilidade, e àquelas que agiam diferente atribuíam-se adjetivos pouco nobres, como masculinizadas, agressivas ou histéricas (LERNER, 1990).

E a inveja com isso?, vocês devem estar se perguntando. Bem, quem não pode dizer abertamente o que quer e lutar abertamente pelo que precisa só pode invejar esta capacidade nos outros. A inveja é o melhor mecanismo de defesa para o ego que se sente tolhido de recursos e admira uma pessoa que os tem. Com ela dá para aliviar a dor da impotência, utilizando atitudes não muito nobres, escondidas, tais como a fofoca, o maldizer moral – enfim, vale qualquer coisa para diminuir o rival.

Apesar de a inveja ser um fenômeno humano universal e acometer homens e mulheres, ela ainda é mais identificada como um traço da cultura feminina, e não sem razão percebemos que as bruxas perseguidas e mortas na Idade Média por sua atividade maléfica eram mulheres.

E o olho gordo, existe, faz mal?

O “mau-olhado”, ou olho gordo é a crença de que uma doença é transmitida – geralmente sem intenção – por alguém que está com inveja ou ciúme. Essa pessoa normalmente não é seu inimigo, mas com inveja pode prejudicar a você, seus filhos, seus animais ou suas plantações, ao lançar-lhes um olhar cobiçoso. As principais vítimas são bebês e crianças pequenas, porque são muito observados e elogiados por estranhos.

Existem palavras para conotar essa superstição em todas as línguas, bem como registros de rituais e amuletos protetores em todas as culturas, desde as sociedades tribais até nossos tempos de sociedade global. Por exemplo, há relatos sobre inveja nos escritos sumerianos de 4.000 anos a.C. (LANGDON, 1931), e nos sarcófagos do Egito dos séculos XXI e XXII a.C. (ROJAS-BERMÚDEZ, 1998) há desenhos de olhos simbolizando energias atuantes e negativas.

No Mediterrâneo Oriental e na região do mar Egeu, especialmente em toda a Grécia e até na Turquia, há uma forte tendência para ver pessoas de olhos azuis como portadores do “olho mau”, provavelmente porque poucas pessoas têm olhos azuis nessas regiões.

Alan Dundes (1992) fez um estudo multicultural dos talismãs e curas contra o “mau-olhado”, e percebeu traços comuns. Parece que o mal causado pelo olhar é frequentemente ligado aos sintomas de secagem e desidratação, como se o olhar fosse uma espécie de micro-ondas, e muitos rituais para a cura costumam envolver umidade. Vemos um exemplo típico nos peixes usados pelos japoneses como antídotos contra a inveja porque estão sempre molhados. Entre os judeus, é hábito cuspir nos lados da pessoa que foi invejada.
Para Freud (1904, p. 919) a crença no “mau olho” é uma superstição e, como tal, representa o medo de desgraças futuras. Além disso, o temor de que “nos desejem mal” seria a manifestação consciente da repressão inconsciente de nossos próprios desejos maldosos contra os outros. É preciso, porém, lembrar que, apesar de supersticiosa, esta crença possui um efeito de sugestionabilidade que não pode ser desprezado.

De Franz Anton Mesmer (1734-1815) (WIKIPEDIA), que com seu magnetismo animal curava dores e doenças pela aplicação de ímãs na fronte das pessoas, passando por Jean-Martin Charcot (1825-1893) (WIKIPEDIA), o hipnotizador das histéricas, e Freud, que abandonou a hipnose concluindo que ela se resumia à sugestionabilidade, às terapias cognitivas contemporâneas (BECK; KUYKEN, 2003), sabemos que as crenças que temos sobre nós mesmos, sobre o mundo e sobre o futuro determinam o modo como nos sentimos e nos comportamos, afetando profundamente nosso bem-estar.

Portanto, sim, o olho gordo faz mal. Ambos, invejados e invejosos, saem danificados ao acreditarem nessa superstição. O invejoso por acreditar que é inferior à pessoa com quem se compara e por obsessivamente perder seu tempo e sua criatividade tentando controlar o invejado. Já a pessoa que acredita ter sido infectada pelo “olho gordo” também apresentará, por sugestionabilidade, o mal-estar correspondente e sentir-se-á impelida a cumprir um ritual para se curar.

Marketing e inveja – o poder e o perigo de ser invejado

A maior parte dos estudos sobre a inveja foca sua observação na pessoa que sente inveja. O alvo da inveja, a pessoa que é invejada ou se faz invejar, é pouco estudado. Possuir atributos, facilidades na vida, estar em posição de destaque causa sentimentos variados, desde a sensação de poder até culpa, desconforto e medo de que algo ruim esteja para acontecer.
Os gregos, segundo Helmut Schoeck (1987, p. 141-152), mencionam em vários mitos a inveja dos deuses, como se houvesse uma justiça divina na distribuição dos bens com garantida punição para quem ousar ultrapassar os limites. Na mesma linha de raciocínio, vemos a ideia de que o prazer é proibido em muitas religiões ou ao menos taxado com o dízimo, que se encarrega da justiça redistributiva.

Numa sociedade capitalista, em que o consumo é estimulado por um marketing agressivo que usa e abusa da comparação entre pessoas, estamos o tempo todo sendo instigados a invejar algo. Invejamos o carro, saborosamente oferecido na televisão por uma pessoa mais bonita ainda que o carro, que veste roupas e acessórios mais bonitos do que ela e o carro e, além de tudo, está sendo fotografada num lugar paradisíaco, muito melhor que o carro, o modelo, as roupas e os acessórios.

Ser alvo da inveja alheia confere status de poder e reasseguramento do próprio valor. Predispõe também a receber atos agressivos, diretos ou indiretos, como desvalorização moral, fofocas, sabotagem etc. e uma desconfortável sensação de culpa, por ser a causa involuntária do sofrimento alheio.

Assim como o consumidor alvo da propaganda exemplificada acima, quando somos comparados com pessoas que têm atributos superiores aos nossos, sentimos uma agressão em nossa autoestima, o que demanda uma ação de retaliação para recuperar nosso valor. Fazer-se invejar pode ser um ato agressivo, pois a inveja é uma emoção social e afeta não apenas indivíduos isolados, mas grupos.

George Foster (1972) sugere que há dois parâmetros para analisar a inveja: do ponto de vista competitivo é útil ser invejado; já do ponto de vista do medo de ser retaliado, é mais seguro passar despercebido e esconder suas qualidades.

Lidar com a inveja dos outros é uma tarefa complexa. Os estudos em psicologia social e sociologia sugerem algumas estratégias comumente utilizadas para se relacionar com pessoas invejosas:

• Minimizar nossas próprias qualidades;

• valorizar o esforço que tivemos que fazer para conseguir tais qualidades;

• elogiar a pessoa que nos inveja, tentando salientar qualidades nela;

• ajudar quem nos inveja, tentando dar-lhe algo de bom;

• esconder nossas qualidades sob pretensa humildade, modéstia;

• socializar nossos ganhos egoicos, mostrando como nossas qualidades ajudam outras pessoas etc.

Ser invejado, enfim, é uma posição existencial ambígua. Ao mesmo tempo em que representa uma forma solitária de reasseguramento, mais-valia, pode acabar gerando um isolamento relacional, uma carência de pares simétricos com quem compartilhar alegrias.

A inveja na literatura psicodramática

Só encontrei um texto dedicado à inveja no nosso mundo psicodramático nacional e internacional. Foi o artigo de Rojas-Bermúdez (1998), De la envidia y de la violencia. O autor estuda a relação entre inveja e violência, concluindo que a violência é o resultado da falta de recursos do Eu para elaborar a inveja despertada pelo outro. Concebe a inveja como um aspecto natural do ser humano, como a fome e a sede, só que insaciável, daí sua tragédia (sic). Ela é desencadeada por um fato social, o encontro com um alguém cujas virtudes evidenciam nossas limitações. Diz o autor: “A inveja é uma resposta emocional que surge em função da existência de carências afetivas prévias e que se estabiliza como paixão” (ROJAS-BERMÚDEZ,1997, p. 53).

Elaborá-la depende dos recursos intrapsíquicos, dos valores e das possibilidades intelectuais de cada pessoa para transformar este sofrimento em criatividade e compensar a carência. Se fracassar, tentará primeiro lutar contra essa paixão e posteriormente lançará suas energias contra a fonte de sua paixão, o outro, o invejado, iniciando a violência.

Moreno (1992) não estudou diretamente o fenômeno da inveja humana, apenas o mencionou de quando em vez em sua obra, tangenciando, porém, várias questões relevantes ao tema, através do teste sociométrico.

Cita, por exemplo, “a inveja do criador”, referindo-se à rivalidade existente entre pessoas criativas, sejam elas heróis, cientistas ou revolucionários, rivalidade que poderia ser avaliada, inclusive, através das citações que os autores de textos científicos fazem de seus colegas:

[…] Esse fenômeno foi denominado “inveja do criador”. Pessoas como ele, precursores dos que desempenham a função de “relações-públicas” em nossa era iluminada, podem ter aparecido, frequentemente, no curso da história, heróis do povo, agindo concomitantemente como antigênios e gênios.

[…] Existiram frequentemente gênios rivais em conflito entre si; o fogo foi roubado a cada geração e assim gradualmente a metodologia científica desenvolveu-se. [Refere-se ao mito de Prometeu.]

[…] Eu usei uma sociometria fria (fria porque está congelada nos livros). (MORENO, 1992, v. 1, p. 135)

Parece acreditar inclusive que esta competitividade seja positiva para a ciência, apesar de penosa para as estrelas sociométricas que podem ser rejeitadas por seu pioneirismo. Diz: “O fenômeno da inveja ao criador não deixa de ter boas características sociais; ajudou a liberar o método científico” (MORENO, 1992, v. 1, p. 140).

A produção psicodramática revelou profunda hostilidade, sendo reforçada por um dos dois indivíduos-chave e rivais, às vezes, resultando em percepção distorcida do pioneiro e de seu trabalho. A reação em cadeia produziu rede social de negação que pode ser denominada antipatia pelo pioneiro, ou inveja do criador. (MORENO, 1992, v. 1, p. 136-137, grifo nosso).

Moreno também compreendeu a força sociométrica da inveja, que através do boicote direto ou indireto pode relegar ao ostracismo gênios criativos.

[…] elogiar ou condenar, roubar ou desdenhar silenciosamente, citar ocasionalmente ou não citar o trabalho de um gênio é modo dinâmico de definir seu lugar ao sol. (MORENO, 1992, v. 1, p. 139)

Em relação às revoluções sociais e suas reais motivações, soterradas por trás das ideologias, Moreno sabiamente percebeu a importância que o sentimento de inveja tem quando as disputas envolvem questões de merecimento versus questões de direito . Diz, a propósito do nazismo:

[…] Se, como é afirmado, os judeus da Alemanha ocupam situação desproporcional, de acordo com sua importância numérica, nas profissões liberais, nas artes, na indústria, isto talvez se deva a um excesso de esforço de sua parte, maior talvez que o despendido por alemães, igualmente, talentosos. Neste caso surgem correntes de agressão e de proteção, na tentativa de equiparar condições que pareçam ameaçar a força de certos elementos do grupo majoritário.

[…] Como a maioria dos grupos dependentes é alemã, podemos, então, imaginar os sentimentos de rancor surgindo entre grupos de líderes alemães, sentimentos que se aliam à convicção de que eles têm mais “direitos naturais” do que os líderes judeus de dirigir as massas de trabalhadores e fazendeiros alemães. (MORENO, 1992, v. 3, p. 128-130)

Moreno sabia e buscava dar relevância ao poder que um ser humano tem sobre o outro, à importância de se sentir gostado e aceito, não só nas primeiras relações afetivas, mas em todas as relações ao longo da vida. Sempre esteve interessado nas minorias não aceitas, nos proletariados sociométricos , buscando reinseri-los em algum grupo. Fez isso através da sociometria, sobretudo através do teste sociométrico, cuja proposta básica era permitir que as pessoas escolhessem as relações e os agrupamentos onde gostariam de estudar, trabalhar – viver, enfim.

Ele não se ocupou de forma direta da questão da autoestima ou do narcisismo em nenhum momento de sua obra. E não o fez provavelmente pela ênfase que sempre deu aos aspectos relacionais em detrimento das questões ligadas ao intrapsíquico. O mais perto que chegou de refletir sobre as questões da relação do Eu consigo mesmo foi a formulação do conceito de auto-tele (MORENO, 1992, p. 140), usado para falar da relação da criança consigo mesma e com sua imagem, e a propósito do colapso da autoimagem dos psicóticos.

Algumas vezes Moreno parece se referir à noção de valor pessoal, mas o termo que usa é “status”. Menciona, por exemplo, “status sociométrico”, referente ao total de escolhas que um indivíduo tem dentro de um grupo; “status do homem na ordem cósmica”, a propósito do abalo que representou para o orgulho do homem as descobertas copernicanas etc.

Por conta das resistências suscitadas pelo teste sociométrico, Moreno percebe que existe um medo de expor as preferências relacionais. Referindo-se aos procedimentos sociométricos, afirma:

A resistência parece à primeira vista paradoxal já que surge frente à real oportunidade de ter uma necessidade básica satisfeita. Esta resistência do indivíduo contra o grupo pode ser explicada. É por um lado o medo que o indivíduo tem de conhecer sua posição no grupo. Tornar-se por si próprio, ou através de outros, consciente desta posição pode ser doloroso e desagradável. Outra fonte de resistência é o medo de que ela possa tornar-se manifesta para outras pessoas de quem gostamos ou mesmo de quem não gostamos e qual seria a posição no grupo que, realmente, queremos e precisamos. A resistência é produzida pela situação extraindividual de um indivíduo, pela posição que ele tem no grupo. Ele sente que sua posição no grupo não resulta de seus esforços individuais. É, principalmente, o resultado de como os indivíduos, com quem convive, se sentem em relação a ele. Poderá até sentir, ligeiramente, que além de seu átomo social existem tele-estruturas invisíveis influenciando sua posição. O medo de expressar os sentimentos preferenciais que uma pessoa tem pelas outras é, na verdade, o medo dos sentimentos que os outros […] nutrem por ele. […]

Estes procedimentos deveriam ser acolhidos favoravelmente já que ajudam no reconhecimento e na compreensão da estrutura básica do grupo. Porém este não é sempre o caso. Encontram resistência e até hostilidade por parte de algumas pessoas[…].

Outros indivíduos também mostraram medo das revelações que o procedimento sociométrico poderia trazer. O medo é maior em algumas pessoas e menor em outras. Umas podem estar mais ansiosas para arrumar seus relacionamentos de acordo com seus desejos atuais, outras têm medo das consequências… Estes e outros fatos revelam um fenômeno fundamental, a forma de resistência interpessoal, resistência contra expressar os sentimentos preferenciais que uns têm pelos outros. (MORENO, 1992, p. 202-203)

Quanto às diferenças sociais e a injustiça em relação à distribuição de bens e qualidades, o conceito moreniano de efeito sociodinâmico parece descrever este processo. Segundo ele, somos diferentes e esta diferenciação é detectada e parcialmente amenizada pelos procedimentos sociométricos. Seria, entretanto, utópico imaginar sociedades absolutamente igualitárias.

A hipótese do efeito sociodinâmico afirma que: a) alguns indivíduos de determinado grupo serão persistentemente excluídos de comunicação e de contato social produtivos; b) alguns indivíduos são constantemente negligenciados, muito aquém de suas aspirações, e outros muito favorecidos, de modo desproporcional a suas demandas; c) surgem conflitos e tensões nos grupos à medida que o efeito sociodinâmico aumenta, ou seja, com a crescente polaridade entre os favorecidos e os negligenciados. Com a diminuição do efeito sociodinâmico – redução da polaridade entre os favorecidos e os negligenciados – diminuem os conflitos e as tensões.

[…] Surgiram, porém, questões quanto à possibilidade de haver sociedade sem efeito sociodinâmico, se tal sociedade já existiu ou existirá, no futuro, e se seria superior à presente. Muitas sociedades religiosas tentaram eliminar o caráter diferencial do grupo, através da supressão de percepções e sentimentos de diferenciação em suas mentes, segundo seus sistemas de valores que postulam que todos os homens são irmãos e iguais, filhos de Deus. A diferenciação torna-se então pecado mortal e a sociometria, ciência do demônio. Outra possibilidade seria aceitar o efeito sociodinâmico como nosso destino. (MORENO, 1992, v. 3, p. 195)

Minha opinião

A inveja é um fenômeno humano universal, atemporal e inevitável. Faz parte da estrutura do psiquismo humano e atua sobre a cultura humana e sobre nossa organização social. A forma, entretanto, de lidar com este sentimento varia de acordo com o equilíbrio emocional e a autoavaliação que cada um de nós faz de suas qualidades, capacidades e merecimentos diante das circunstâncias da vida.

Em meu livro Sobrevivência emocional (1998), desenvolvi a ideia de que os diferentes aspectos de nossa identidade – ou, nos termos da teoria de papéis de Moreno, nossas diferentes possibilidades relacionais – se organizam de acordo com uma espécie de “Sistema de Manutenção da Autoestima”. Acredito que das primeiras relações de dependência se estrutura o papel central de nossa identidade. O valor que o “eu” adquire nesta primeira avaliação será determinante das manobras compensatórias que ele terá que fazer para manter seu narcisismo em níveis suportáveis.

No início da vida extrauterina a criança não sabe de onde vem o prazer e o desprazer. Experimenta os papéis psicossomáticos , como um todo indiscriminado – ela, o mundo, a mãe e o seio, ela a cólica, a cólica e a mãe. Só aos poucos, conforme amadurece o sistema neurológico e através da repetição da experiência, a criança vai associando o prazer com a presença da mãe ou cuidador e o desprazer com sua ausência (isto quando se trata de uma criança normal, com pais normalmente provedores).

Ou seja, aquilo que inicialmente era decodificado como prazeroso porque saciava uma necessidade fisiológica de sobrevivência começa a ganhar certa independência e já não precisa da necessidade fisiológica para ocorrer . A presença da mãe e/ou cuidador(es) começa a gerar prazer, mesmo quando não há nenhuma necessidade para ser satisfeita. É o prazer de ser visto, tocado, cuidado, ouvido por alguém que potencialmente é mais poderoso e que me outorga certo poder se escolhe ficar comigo. O contrário também é verdadeiro: começa a existir a experiência de desprazer cada vez que o cuidador não aparece, ou aparece e não dá toda a atenção que o sujeito espera.

Este novo tipo de prazer-desprazer é o que vai constituir aquilo que chamo de “Economia Narcísica” ou “Sistema de Manutenção da Autoestima”, um segundo sistema dentro do psiquismo, acoplado ao que regula o prazer e desprazer corporais, encarregado de determinar, a todo o instante, qual o valor do Eu para o outro (quanto o outro estima o Eu) e para si mesmo (autoestima).
Sabemos todos por experiência própria que existe uma dor que não é física, mas psicológica. A autoestima precisa ser mantida dentro de alguns níveis de valoração, senão produz-se dor – é a dor de não ser amado, a dor de se perceber pouco importante para o outro, a dor de se sentir vulnerável, a dor de se sentir enganado, traído, e também a dor da inveja, sentir que outro possui atributos que você queria para si. Isto é o que Kohut (1984, p. 80-121) chama de “Injúria Narcísica”, a súbita percepção de que o Eu, que se julgava valorizado por outrem e por si mesmo, na realidade pode perder o valor subitamente.

Os critérios para o Eu se sentir valorizado ou não movem-se dentro de parâmetros ditados pelo meio familiar e sociocultural do qual o sujeito emerge; são critérios relativos e algo flexíveis, pois se modificam com o desenvolvimento, com o momento da vida etc. Entretanto há duas regras, extremamente simples de serem formuladas, que coordenam a estrutura central desse sistema valorativo, uma inter-relacional e outra intrapsíquica:

1) Por inter-relacional entendo todas as relações que uma pessoa estabelece com outras pessoas, desde as primeiras relações com a mãe e familiares até as complexas relações adultas. Neste sentido, sempre que o Eu se sente valorizado por outrem, gratuitamente ou por algo que tenha feito, seu valor intrínseco e sua autoestima sobem; o contrário também é verdadeiro e a pessoa se sente desvalorizada quando não recebe toda a atenção que deseja.

2) Já o intrapsíquico é constituído pelas relações que uma pessoa mantém consigo mesma, e neste contexto a regra para o Eu saber se tem ou não valor é ainda mais simples: o Eu se gosta quando é gostado e não se suporta se é rejeitado ou desprezado.

Cada pessoa possui provavelmente um nível ótimo de valor pessoal que seu psiquismo precisa manter para sobreviver psicologicamente. Quando este autovalor ou autoestima está muito baixo, recursos defensivos são criados para tentar otimizá-lo através de certa compensação de forças. A violência gerada pela dor da inveja seria uma destas manobras defensivas, que busca compensar nosso autovalor diante da superioridade que percebemos no outro.

Portanto, trabalhar terapeuticamente com a inveja implica rever a vida emocional do cliente e seu narcisismo. É um trabalho que se inicia a partir de um conflito atual, mas que percorre o tempo da vida do cliente, através de associações cênicas e do rastreamento de repetições e transferências (CUKIER, 1998, p. 69-76). O objetivo final é promover reparações no Sistema Mantenedor da Autoestima, ou Sistema Narcísico, do paciente que, como expliquei anteriormente, consiste numa espécie de central autoavaliadora ou, em termos morenianos, central sócio e autométrica permanente que temos no psiquismo e que nos informa a todo momento qual nosso valor para o outro e para nós mesmos.

Conclusão: como trabalhar psicodramaticamente com a inveja?

Em geral o tema da inveja aparece indiretamente através de conflitos relacionais ou, mais frequentemente, através da observação do cliente de que os outros têm inveja dele. Nunca recebi um caso em que a pessoa identificasse seu problema como um excesso de inveja, pela vergonha que tal declaração promoveria.

Por isso creio que devemos trabalhar a questão de forma indireta também, seguindo as sinalizações do cliente. O psicodrama nos oferece muitos recursos para ir avançando, desde as cenas atuais de um conflito relacional até o drama intrapsíquico, no qual se desvendam temas como a autoestima e o narcisismo. O trabalho com cenas regressivas (CUKIER, 1998, p. 69-76) e suas repercussões atuais é, em minha opinião, o mais profundo neste sentido.

Talvez o mais difícil seja iniciar o aquecimento para que o paciente se predisponha a abordar o tema da inveja. Faço isto de forma sutil, utilizando a inversão de papéis sempre que a demanda venha na forma de “o outro me inveja”. Peço que o paciente seja este outro, ponha-se em sua postura, experimente a vida um pouco como se fosse ele. Exploro bem esta inversão, sobretudo o sentimento de raiva que os atributos do rival causam no cliente.

A inversão de papel permite também que o cliente vivencie a temática da inveja dos dois lados: sendo o invejado e o invejoso. Em ambos os papéis podemos pedir associações com situações já vividas e aprofundar na psicodinâmica.

A interpolação de uma escultura desta relação conflituosa é muito útil para se trabalhar o tema a distância. Tive uma cliente que se queixava do quanto sua cunhada, muita rica, invejava sua disposição para trabalhar e lutar pela vida. Ao jogar o papel da cunhada, pedi que me falasse de como a riqueza aparecia em sua forma de ser, se nas roupas, na postura etc. A cliente imediatamente pôs-se a descrever com detalhes as marcas de seu vestuário, as bolsas assinadas, as compras na Daslu (boutique de moda) etc. Sua postura era majestosa, movia-se como uma rainha. Pedi que ela, ainda no papel da cunhada, falasse o que achava da minha cliente, e a primeira coisa que foi dita foi: “Ela é pobretona, veste-se mal, compra na José Paulino (rua de comércio popular)”.

Em seguida pedi para a paciente olhar a distância esta relação e criar uma escultura de barro de duas pessoas que se relacionam assim. Como seria a escultura? Que postura teria a rica e que postura teria a pobre? Depois lhe pedi que nomeasse a escultura. O nome que a cliente deu foi: “A escrava e a rainha”.

A temática da escrava e da rainha foi a tônica de toda a terapia desta cliente, que aos poucos enfrentou seu sentimento de inferioridade na infância. Muitas cenas foram dramatizadas: cenas na escola primária, em que precisava sempre pedir emprestado o material escolar porque seus pais não podiam comprá-lo; cenas nas refeições familiares, quando não havia carne para todos e os pais não comiam, gerando culpa nos filhos – cenas, enfim, em que ela aprendeu a não querer coisas que não poderia ter e a odiar pessoas que as tinham.

Compreendendo a dor e a impotência infantis e aprendendo a não sucumbir a elas nem utilizar as mesmas defesas de outrora, a cliente pôde perceber que era adulta, ganhava bem e podia se dar coisas, objetos e confortos que gostaria. Na última sessão da terapia trouxe uma bolsa de marca famosa, dizendo que tinha sido um presente para si mesma, depois de ter tido coragem de olhar para sua vida. Nunca mencionamos a palavra inveja durante o processo terapêutico, e a cunhada desapareceu, aos poucos, de seus conflitos.

A técnica do duplo é desaconselhável na temática da inveja. Falar para um cliente que ele sente inveja é quase dar-lhe um tapa na cara, o contrário da ideia de um trabalho sutil.

Já o espelho, que favorece um olhar distanciado do conflito, é de grande auxílio terapêutico. No caso relatado acima, muitos insights foram obtidos quando a cliente, olhando a distância a cena que acabara de jogar com a cunhada, era remetida à lembrança de outra cena, em outro contexto, em que também se sentia escrava. O espelho favorece a percepção da cadeia transferencial.

Metáforas, maximizações, concretizações, jogos dramáticos, são todos possibilidades de ação úteis e desejáveis, especialmente no psicodrama grupal, em que a temática da inveja surge in situ, envolvendo todos os participantes do grupo, inclusive o terapeuta e o ego auxiliar. Foram frequentes na clínica situações grupais nas quais algum cliente se ressentia da atenção que eu, como terapeuta, havia dado para outro cliente. Mesclados neste ciúme revelado, repetidas vezes vi aflorarem, após algum trabalho, sentimentos de inferioridade em relação ao rival, associações com situações da família primária etc.

A loja mágica, na qual o cliente compra simbolicamente diferentes tipos de características, ao mesmo tempo em que vende ou troca traços de caráter ou personalidade, costuma ser útil para aclarar o que é cobiçado no outro.

Um aspecto muito importante no trabalho terapêutico com a inveja é auxiliar o cliente a fazer o luto do ideal de justiça do mundo, a aceitar a realidade injusta da vida. Igualmente importante é aceitar o sentimento de inveja, sem se desqualificar, percebendo que é uma emoção humana, mas que não tem que se tornar uma obsessão, nem conduzir ações de vingança, ódio etc. O cliente precisa também legitimar o desejo que está implícito na inveja e empreender ações para obtê-lo. A técnica do role-playing é muito boa para aprender e testar novos papéis, atitudes, aspirações etc.
Finalizando, devo dizer que uma terapia eficiente para a inveja ajuda o cliente a reduzir sua vergonha, aumentar seu autovalor, contemplar seus próprios desejos e se abrir para a riqueza da vida. Menos força psíquica será utilizada para se comparar com os outros, e mais em compaixão por si mesmo e por todo mundo que luta para ter a melhor vida que pode.

Referências

ARISTÓTELES. Retórica das paixões. São Paulo: Martins Fontes, 2000.

BECK, A. T.; KUYKEN, W. Terapia cognitiva: abordagem revolucionária. In: ABREU, C. N.; ROSO, M. (Orgs.). Psicoterapias cognitiva e construtivista: novas fronteiras da prática clínica. Porto Alegre: Artmed, 2003.

BERMAN, Avi. Envy, competition and gender: theory, clinical applications and group work. London: Routledge, 2007.

BUSTOS, Dalmiro et al. O psicodrama. São Paulo: Ágora, 1994.

BYINGTON, C. A. B. Inveja criativa: o resgate de uma força transformadora da civilização. São Paulo: W11, 2002.

CHAVES, Eduardo O. C. Justiça social, igualitarismo e inveja: a propósito do livro de Gonçalo Fernández de La Mora. Revista da Faculdade de Educação da UNICAMP, Campinas, n. 4, mar. 1991.

CHODOROW, N. The reproduction of mothering: psychoanalysis and the sociology of gender. California: University of California Press, 1999.

CINTRA, E. M. U.; FIGUEIREDO, L. C. Melanie Klein: estilo e pensamento. São Paulo: Escuta, 2004.

CUKIER, Rosa. Sobrevivência emocional: as feridas da infância revividas no drama adulto. São Paulo: Ágora, 1998.

DE LA MORA, Gonçalo Fernández. Egalitarian envy: the political foundations of social justice. Minnesota, Paragon House Publishers, 1987.

DUNDES, Alan. The evil eye: a casebook University of Wisconsin Press, Madison, Wisconsin. Originally published in 1981 by Garland Publishing, New York, 1992.

FOSTER, M. G. The anatomy of envy: a study in symbolic behavior. Current Anthropology, Chicago, v. 13, n. 2, Apr. 1972.

FREUD, S. Obras completas: Além do princípio do prazer. Madrid: Biblioteca Nueva, 1920.

______. Obras completas: Psicopatología de la vida cotidiana. Madrid: Biblioteca Nueva, 1904.

______. Obras completas: Tres ensayos para una teoría sexual. Madrid: Biblioteca Nueva, 1905.

GAIARSA, J. Tratado geral sobre a fofoca. São Paulo: Summus, 1978.

GILLIGAN, C. Uma voz diferente. Rio de Janeiro, Rosa dos Tempos, 1982.

HILES, D. R. Envy, jealousy, greed: a Kleinian approach. Paper presented to CCPE, London, 2007.

HILL, Sarah E.; BUSS, David M. The evolutionary psychology of envy. 27 mar. 2006. Disponível em: <http://homepage.psy.utexas.edu/HomePage/Group/BussLAB/pdffiles/evolution%20of%20envy.pdf>. Acesso em: 20 ago. 2014.

HORNEY, K. Feminine psychology. New York: W. W. Norton & Company, 1967.

JUNG, Carl Gustav. Fundamentos de psicologia analítica. Petrópolis: Vozes, 1991.

KLEIN, Melanie. Inveja e gratidão: um estudo das fontes inconscientes. Rio de Janeiro: Imago, 1974. (Coleção Psicologia Psicanalítica).

KOHUT, H. Self e narcisismo. Rio de Janeiro: Zahar, 1984.

LANGDON, Stephen Herbert. Epic of Gilgamesh. In: MACCULLOCH, John Arnott. Mythology of all races: Semitic, v. V. Boston: Archeological Institute of America and Marshall Jones, 1931. p. 234-269.

LERNER, H. Mulheres em terapia. Porto Alegre: Artes Médicas, 1990.

MORENO, J. L. Psicodrama. São Paulo: Cultrix, 1975.

MORENO, J. L. Quem sobreviverá?: fundamentos da sociometria, psicoterapia de grupo e sociodrama. Goiânia: Dimensão Editora, 1992.

NAVARRO L.; SCHWARTZBERG S. Envy, competition and gender. London: Routledge, 2007.

ROJAS-BERMÚDEZ, J. De la invídia y de la violencia. Revista da Sociedade Portuguesa de Psicodrama, Lisboa, v. 5, p. 33-66, 1998.

SAPOLSKY, Robert M. Monkeyluv: and other essays on our lives as animals. New York, Scribner, 2005.

SCHOECK, Helmut. Envy: a theory of social behavior. Indianapolis: Liberty Fund, 1987.

SHAKESPEARE, W. Otelo. Porto Alegre: L&PM, 1999.

SMITH, R. H. Envy and its transmutations. In: TIEDENS, L. Z.; LEACH, C. W. The social life of emotions. Cambridge: Cambridge University Press, 2004.

TAKAHASHI, H. et al. (2009). When your gain is my pain and your pain is my gain: neural correlates of envy and Schadenfreude. Science, New York, v. 323, p. 937-939, 13 Feb, 2009.

WIKIPEDIA. Franz Anton Mesmer. Disponível em: <http://pt.wikipedia.org/wiki/Franz_Anton_Mesmer>. Acesso em: 20 ago. 2014.

______. Jean-Martin Charcot. Disponível em: <http://pt.wikipedia.org/wiki/Jean-Martin_Charcot>. Acesso em: 20 ago. 2014.

WINNICOT, D. W. O brincar e a realidade. Rio de Janeiro: Imago, 1975.