PSICODRAMA DAS ADIÇÕES:  A luta entre a parte aditiva da personalidade e o verdadeiro EU

 

PSICODRAMA DAS ADIÇÕES é um artigo que visa descrever a psicodinâmica e o tratamento d e pacientes aditos.

Sempre fico surpresa ao investigar psicodramaticamente as adições dos meus clientes. Invariavelmente, o conflito que surge entre a droga ¾ objeto da adição ¾ e a parte adita da personalidade do cliente tem semelhanças com várias tragédias descritas na literatura clássica. É o caso do mito de Fausto na versão de Goethe[1].

Trata-se da história do cientista Fausto que, burlando as leis da Igreja na Idade Média, busca, de forma incansável e onipotente, desvendar o mistério da existência. Domina várias ciências, mas nenhuma delas sacia seu desejo de transformar-se numa espécie de “Deus”, com acesso ilimitado a tudo o que ocorre na natureza.

Consciente de seus limites humanos e inconformado, é abordado e seduzido por Mefistófeles (o diabo). Compromete-se a entregar-lhe a alma em troca de conhecer e experimentar intensamente os prazeres mundanos e de ter o dom de controlar o tempo e as pessoas, fazendo-as oscilar segundo seu desejo.

O resultado é funesto. Por onde passa Fausto espalha infelicidade e, no final, descobre-se vítima da própria sede de onipotência, pois acaba ferindo a si mesmo e à única mulher que deveras amou.

Assim como Fausto, a pessoa adita busca burlar as regras do sistema. Só que, neste caso, trata-se de burlar não apenas uma instituição, mas a própria natureza humana, desafiando sua vulnerabilidade essencial. Nós, humanos, somos impotentes diante da falta de lógica e justiça na distribuição de infortúnios e diferenças ¾ família em que nascemos, saúde, riqueza, beleza, inteligência etc. ¾ e diante de um futuro que desconhecemos, mas que nos garante apenas nossa própria morte, bem como a daqueles a quem queremos muito.

Parodiando a tragédia de Fausto, o verdadeiro EU[2] de um ser humano vende sua alma à parte adita, em troca da promessa de alívio rápido para todas as tristezas, dores e frustrações que a vida normal ocasiona.

Mais ainda, a observação de vários casos clínicos mostrou-me que a pessoa potencialmente adita parece acreditar que a vida dos outros seres humanos não é igual a sua e não produz as dores e decepções que ela experimenta. Sente-se, portanto, vítima da vida, necessitando de alguma ajuda extra para, enfim, tornar-se “normal”. Na realidade, carece da capacidade de elaborar frustrações e lutos, tornando-se vítima, sim, mas de falsos alívios, vítima da droga-diabo, que lhe traz um bem-estar passageiro e uma prisão perpétua.

Por que alguém venderia sua alma ao diabo ou se auto-administraria drogas que podem matá-lo ou aprisioná-lo e denegrir sua saúde? Esta é a pergunta que me motivou a estudar o tema das adições, sobre o qual tentarei, nas páginas seguintes, ser o mais clara possível, expondo as conclusões às quais cheguei.

HISTÓRICO E CONCEITO DE ADIÇÃO (Twerski, 1996)

O tratamento da adição de forma sistemática pode ser associado ao surgimento da A.A.A. (Associação dos Alcoólatras Anônimos) em 1935. Esta organização foi criada por iniciativa de pessoas alcoólatras na tentativa conjunta de conseguir resistir ao álcool. A simetria dos participantes (não há médicos, discursos competentes ou hierarquias de saúde) é a maior peculiaridade deste grupo; todos sofrem do mesmo mal, ninguém é melhor ou pior que o outro,apenas um grupo de pessoas que se apóia mutuamente e se olha de igual para igual.

Historicamente, a prática aditiva foi considerada uma fraqueza moral, de pessoas inábeis que não conseguem lidar com a realidade. Hoje, pensamos nela como uma doença física, emocional, cognitiva e espiritual. Seu foco de estudo, antes limitado ao álcool e drogas (oral-injetáveis), foi agora expandido, incluindo outros comportamentos compulsivos[3], como por exemplo: adições à comida, ao jogo, ao sexo, às compras, ao trabalho, a pequenos furtos etc. ¾ que também induzem a alterações de humor, isolamento social, vergonha e desespero.

Atualmente compreendemos que todas as pessoas têm o potencial de se tornar aditas, pois a adição se fundamenta no desejo normal de passar pela vida com menos dor e mais prazer.

OBJETOS DA ADIÇÃO E ALTERAÇÕES DO HUMOR

São inúmeros os objetos potencialmente aditivos: álcool, cigarro, comidas, drogas, jogo, sexo etc. A escolha do objeto da adição depende de sua disponibilidade. É muito comum o adito trocar um objeto de adição por outro, como, por exemplo, trocar álcool ou cigarro por comida. Também é comum uma pessoa ser multi- adita (Black, 1990: 74).

O que todos os objetos de adição têm em comum é o fato de produzirem uma mudança de humor rápida e prazerosa, em uma destas três direções:

  • Excitação – é um estado hipomaníaco onde o indivíduo se sente todo-poderoso, onipotente, completo.
  • Saciedade – é um estado relaxado, pleno de uma sensação de estar alheio e anestesiado para a dor e o estresse.
  • Transe – é um estado alterado de consciência que propicia as duas sensações anteriores. É meio hipnótico, cria uma realidade virtual gratificante, onde se experimenta um estado de espírito grandioso.

O fator sedutor e viciante dos objetos aditivos reside, em grande parte, no fato de eles produzirem estas alterações de humor rapidamente. Se o efeito da adição tardasse, ela não viciaria.

DESENVOLVIMENTO DE ADIÇÕES

A adição é um processo, tem um começo definido, apesar de confuso, passa por estágios de desenvolvimento e chega a um fim (que, às vezes, coincide com a morte do indivíduo).

Estágio I – Mudança Interna

A adição se inicia quando o adito, assim como todas as pessoas normais , experimenta uma mudança de humor com o objeto da adição. Só que para ele este rápido escape de uma realidade dolorosa é extremamente prazerosa e causa um impacto de intensidade incalculável. Alguns jogadores, por exemplo, começam a se viciar após a primeira partida na qual ganharam muito dinheiro.

A partir daí, uma obsessão mental começa a anteceder e gerar o comportamento aditivo (atuar aditivo ou acting out ). No estágio I o adito atua pouco e se comporta dentro dos limites socialmente aceitos. O objeto da adição é como um amigo que ajuda nas horas difíceis, despistando e/ou curando a dor.

 Estágio II – Mudança no Estilo de Vida

Agora a pessoa viciada já pratica regularmente sua adição, bebendo, comendo, comprando, consumindo pornografia etc. O comportamento aditivo se ritualiza, ou seja, começa a apresentar uma sequência de atos repetitivos. Rituais preservam comportamentos, exigindo que tudo seja feito na ordem certa, caso contrário é preciso começar tudo de novo.

A personalidade original do indivíduo (verdadeiro eu) começa a mudar e se acomodar à personalidade adita. As pessoas relacionadas com o adito já percebem que algo está errado e, simultaneamente, ele começa a mentir, para se justificar ou disfarçar. A adição começa a perder o seu poder de sedução, ela ainda ajuda a evitar a dor, mas aos poucos começa também a causá-la

Estágio III – Perda de Controle Total

 Neste terceiro estágio a parte adita da personalidade ganha controle total sobre o “verdadeiro eu”, que já nem luta mais. O bem-estar obtido outrora com o objeto da adição sucumbe ante o estresse causado pelas mentiras acumuladas, pela tensão nas relações interpessoais e pelo desprazer na ausência do objeto. O acting out aditivo começa a trazer mais dor do que prazer.

O adito só se sente em paz e segurança quando envolvido com seus rituais aditivos, evitando qualquer contato íntimo que possa revelar sua total deterioração. Por outro lado, ele teme ficar só, uma vez que não dá conta da própria vida. Busca parasitar familiares, manipulá-los para que satisfaçam suas necessidades e atuem como cuidadores.

Tende a ser viscoso, insistente, pedindo outra chance ou se fazendo de vítima, perdendo emprego, amigos, envolvendo-se com a lei, chegando à total degradação pessoal.

TRATAMENTO DAS ADIÇÕES

Os estudos sobre adição são pessimistas quanto a sucessos terapêuticos. O índice de 25% de curas é o máximo relatado, caso todas as seguintes estratégias terapêuticas sejam utilizados conjuntamente:

1- Medicação antidepressiva;

2- Frequência a reuniões das A.A.A.,

3- Psicoterapia familiar e

4- Psicoterapia individual.

Cada intervenção que se tira deste pacote diminui a chance de sucesso, motivo pelo qual discutiremos cada uma delas em separado.

1-Medicação anti-depressiva

Até porque muitos pacientes chegam ao consultório bem-dispostos, queixando-se de algum problema relacional, raramente reconhecendo a dependência como seu problema principal. Ao contrário, a droga ou objeto da adição é sentido como uma amiga que ajuda circunstancialmente e pode ser mandada embora quando não for mais necessária.

A depressão vem mascarada por esta automedicação e é difícil abordá-la. Temas como injustiças da vida, azar, perseguição dos outros etc. costumam ocupar as primeiras sessões. Quando a droga é abordada e a abstinência se inicia, ocorre um caos emocional, com depressões frequentes. É preciso paciência por parte do adito e da família e muita continência do terapeuta.

Os estudos mostram que muitos aditos precisam atingir o “fundo do poço”, ou seja, uma experiência-limite de destruição da própria vida (perda de emprego, do casamento, dos filhos, ser encontrado bêbado na rua, ser preso por dívidas etc.), para acreditar que não têm controle sobre a adição e começar a querer se tratar.

Esta experiência catastrófica é terapêutica porque o ser humano costuma gravitar de uma situação estressante para uma que é menos estressante. A abstinência de início é antinatural, porque é menos gratificante do que o estado de high que a droga propicia. É como pedir a alguém que jogue fora sua joia mais preciosa.

Somente após chegar “no fundo do poço” esta relação, às vezes, se inverte e a percepção do que é pior muda. O adito fica assustado com sua total decadência e começa a querer fazer tudo para evitar este final catastrófico novamente.

A crise (“experiência de fundo do poço”) abre uma rachadura no muro de proteção delirante da cognição adita. É uma rara chance de contato com a verdadeira pessoa, mas, tão logo a crise passe, cicatriza a rachadura e o sistema delirante de novo toma o controle. Infelizmente, a maior parte das famílias de aditos, pensando em proteger sua imagem, o acoberta, não deixando que ele viva esta experiência autodestrutiva. O trabalho com famílias de aditos visa conscientizá-las de que sua codependência prejudica mais do que auxilia.

Se antes da abstinência o paciente tinha a sensação de realidade injusta, falta de cor na vida, após a abstinência esta insatisfação toma proporções macroscópicas. Muitos autores indicam a medicação antidepressiva como o passo inicial no tratamento, até anterior à abstinência, acreditando que ela ajudará o adito a tolerar a dor de encarar sua realidade. Antidepressivos são muito recomendados, pois não viciam. Já os benzodiazepínicos devem ser evitados, uma vez que viciam, e é preciso muito cuidado para não substituir uma adição por outra.

A abstinência é um desafio formidável e muito difícil porque exige que:

  1. O adito perca a confiança de que pode controlar a adição; ele precisa saber que seu senso de realidade está distorcido e que não pode contar consigo mesmo. A experiência-limite representa um tombo doloroso e ensina mais do que mil conselhos. O terapeuta deve ajudar o paciente a chegar a esta conclusão.
  1. Aditos precisam submeter sua percepção à de outra pessoa para checar se o que percebe realmente existe. Isto implica deixar-se controlar por um outro alguém (marido, A.A.A., terapeuta etc.), tarefa especialmente difícil para quem se desenvolveu num ambiente disfuncional, que o adestrou no sentido oposto.

2) A.A.A. (Associação dos Alcoólatras Anônimos)

Aditos confundem e seduzem pessoas normais com sua lógica aditiva. Por isso a importância da terapia em grupo homogêneo, já que ela obriga a “um confronto entre iguais”, primeiro fator terapêutico dentre os vários descritos abaixo, responsáveis pelo sucesso das A.A.A.s no mundo todo:

a-Ver-se refletido, tal como num espelho, é extremamente terapêutico, pois permite a crítica, no outro, de aspectos que não se pode admitir em si mesmo.

b- A ausência de hierarquias superior/inferior e o fato de todos no grupo compartilharem a mesma adição e a mesma vergonha por experiências abusivas intra-familiares facilita a abordagem do próprio problema: “Sou um entre muitos, não o único fraco da turma”. Também favorece o reconhecimento de valores e mitos familiares que estimulam a adição. Por ex.: um homem só é homem se bebe; ter coisas é ter amor etc. 

c- A filosofia de doze passos da A.A.A. postula o poder espiritual de um ser superior protetor e sábio (pode ser Deus, a natureza, a saúde etc.). Este viés espiritual é fundamental para abordar a “insegurança básica do adito”, naturalmente desconfiado de seres humanos e de si próprio. Já nas primeiras reuniões, os freqüentadores reconhecem que não têm controle sobre sua doença, mas que um ser superior tem e os ajudará.

d- A noção de tempo veiculada nas A.A.A.s ¾ Vive-se um dia de cada vez” e ”Só por hoje não vou utilizar o objeto da minha adição“ ¾ atende perfeitamente à enorme dificuldade do adito em retardar a gratificação. Sua lógica emocional só contém o presente, o agora! Esta concepção de tempo alterada é a responsável pelo conhecido argumento: “Eu posso parar a adição sempre que quiser” . Na realidade, pode mesmo. Todos os aditos são especialistas em parar milhões de vezes, fazer novas resoluções sobre a vida e retomar a adição depois. É um círculo vicioso que pode continuar por anos.

e- O grupo suporta recaídas e acolhe o recomeçar, sempre tão difícil quando alguém precisa superar uma adição.

f- Finalmente as A.A.s auxiliam na discriminação de rituais aditivos e estimulam que certos locais, em certas horas, sejam evitados, como, por exemplo, bares, bingos, lojas, ficar sozinho à noite em casa[4] etc.

3) Psicoterapia familiar e/ou grupos de apoio às famílias de aditos

Famílias de pessoas aditas com frequência estimulam, indiretamente, a utilização de drogas e abrigam psicodinâmicas relacionais disfuncionais, codependentes e de muito sofrimento. O estímulo ao uso de drogas pode, por exemplo, advir de hábitos familiares, aparentemente banais, tais como: uso excessivo de automedicação, beber socialmente, tabagismo, utilização de cafeína como estimulante, utilização de comida para gratificação e conforto emocionais, excesso de trabalho etc. Crianças e jovens crescem observando adultos buscarem alívio de seus conflitos e dores nessas práticas que podem se transformar em modelos futuros de conduta.

Além disto, o convívio com pessoas aditas é muito destrutivo e demanda auxílio específico. Nas A.A.A.s há grupos destinados a apoiar familiares de alcoólicos e aditos. São eles o Al-Anon (grupospara familiares e amigos de alcoólicos) e Nar-Anon (grupos para familiares de aditos do Brasil). Nesses grupos aprende-se a lidar com a psicodinâmica da codependência. Seus ensinamentos fundamentais são:

  • Ninguém é responsável pela doença de outra pessoa, nem pela sua recuperação.
  • Não se deve sofrer em virtude dos atos e reações de outra pessoa.
  • Não se deve permitir que sejamos usados ou abusados no interesse da recuperação de outra pessoa.
  • Não se deve fazer pelos outros o que eles devem fazer por si mesmos.
  • Não se deve manipular as situações de forma que os outros comam, durmam, se levantem, paguem as contas, não bebam.
  • Não se deve encobrir os erros ou as coisas malfeitas de outra pessoa.
  • Não se deve criar uma crise.
  • Não se deve impedir uma crise, se a mesma estiver no curso natural dos acontecimentos

As famílias são monitoradas para certo desligamento emocional, a fim de se protegerem e de permitir que o adito experimente o “ fundo do poço” , experiência-limite que pode, eventualmente, ajudá-lo. Temas como lealdade, vergonha, culpa, segredos são compartilhados nos grupos, e os resultados costumam ser muito bons.

 

Psicoterapia individual

Não é fácil abordar terapeuticamente pessoas aditas devido à impenetrabilidade desta mente dominada por uma lógica e cognição tendenciosas e por alterações na concepção de tempo.

O que conseguimos em geral é uma aparente melhora de início, seguida de recaídas na droga e abandono da terapia. Trabalhei certa vez com um homem obeso que perdeu 70 quilos em três anos de psicoterapia individual, para recuperá-los todos em dois meses e abandonar o tratamento no final. Prevenir recaídas deve ser tarefa constante, desde o início da terapia.

Acho que o psicoterapeuta que atende pessoas aditas precisa ser bastante humilde para admitir que sozinho não dará conta do recado. O prazer que a droga propicia seduz muito mais do que uma hora semanal de trabalho reflexivo. É preciso, no mínimo, a assessoria de um médico psiquiatra e a inclusão das A.A.A.s em algum momento da terapia, tanto para o paciente quanto para a sua família.

É preciso também evitar, a qualquer custo, o sedutor papel de “salvador do mundo”, controlador da ingestão da droga, da dieta, das despesas etc. ¾ sob pena de ver-se agarrado pela psicodinâmica co-dependente e perder sua operatividade. Estas são questões e práticas que podem ser discutidas na psicoterapia, mas não é função do terapeuta controlá-las.

Conquistar a confiança do adito é o primeiro passo, e isto inclui avisar que ele sentirá muito desconforto durante a psicoterapia, talvez tenha que ser medicado e, em algum momento, precisará frequentar as A.A.A.s. Se o paciente não concordar com estas condições, é melhor não aceitá-lo em psicoterapia e guardar “a única bala do gatilho” para outra ocasião, quando ele realmente quiser se tratar.

 

PSICODINÂMICA DAS ADIÇÕES “VERDADEIRO EU (“EU”)X ADITO (PARTE ADITA DA PERSONALIDADE)

Na psicoterapia de aditos estão presentes, o tempo todo, duas personalidades: uma que quer muito colaborar (“EU”) e outra que, sub-repticiamente, busca boicotar, mentir e acabar com qualquer esforço para afastá-la das drogas (parte adita).

O processo de adição inicia-se fortuitamente ou a partir de algum desconforto. O objeto ou prática aditiva cria uma sensação de bem-estar, perfeição, pelo menos por um tempo. O “EU” se sente culpado, ansioso. Estas são características iniciais de alerta que, infelizmente, com o passar do tempo, deixam de atuar.

Cada vez que atua sua adição, a personalidade adita ganha um pouco mais de controle. O “EU” desaprova esta forma de agir, sentir e pensar, mas adora a mudança de humor que o objeto aditivo proporciona; faz promessas de controlar o adito com sua força de vontade e às vezes consegue, mas acaba sucumbindo à personalidade adita. Aos poucos o “EU” fica menos tolerante ao desconforto, e qualquer frustração já é vivenciada com dor, sinalizando a hora de procurar o objeto da adição.

A adição ocorre pela negação da dor emocional e por uma recusa em depender de seres humanos para obter alívio. O adito não se importa com a mulher e filhos, nem mesmo com o próprio self, que pode ficar doente e até morrer. O sonho da parte adita é escapar da dor, obter paz, perfeição sensorial e satisfação imediata; o “EU” sonha em controlar o adito. Até que o “EU” vai perdendo energia, desiste e se entrega.

Trata-se de um ciclo vicioso: quanto mais o “EU” procura alívio na adição, mais vergonha e culpa sente, mais se desestima, aumentando sua dor e desconforto iniciais. Aí de novo busca alívio na prática aditiva e o ciclo recomeça. A Figura 1 ilustra este processo:

CICLO DA ADIÇÃO

FIG. 1 – CICLO VICIOSO DA ADIÇÃO

 

Para que possamos realmente começar uma psicoterapia, o paciente tem que entender este ciclo e perceber que não tem controle sobre a adição. O lado adito é muito mais forte e articulado e, mesmo em abstenção, sempre será uma ameaça para o self.

 

PSICODRAMA E ADIÇÕES

Estudos com animais e pacientes traumatizados (Mary, 2004: 30; Van der Kolk, Mc. Farlane & Weisaeth,1996) sugerem que psicoterapias vivenciais são mais efetivas do que terapias apenas verbais.

A resposta imediata a uma situação estressante[5] dispara mecanismos de reação do sistema nervoso simpático, conhecida como “reação de alerta”. O organismo animal se prepara para lutar ou fugir ( Walter Cannon 1939 Paul MacLean 1952) . Impedido de reagir o cérebro animal funciona através de mecanismos arcaicos (Levine,1999 ) provocando uma resposta de congelamento das funções vitais Este artifício permite que o animal, fingindo-se de morto, consiga às vezes ser abandonado pelo predador, ou, no mínimo, obtenha certo tempo para bolar outra estratégia de fuga.

Salvo algumas diferenças, o mesmo ocorre, com o animal humano. Quando somos impedidos de reagir nosso cérebro funciona com sua camada reptiliana e o congelamento das funções vitais se manifesta através de uma respiração superficial e músculos endurecidos, simulando rigor mortis, e uma mente anestesiada, como se a pessoa fosse um zumbi.

Só que, ao contrário do animal que, passado o perigo, descongela por meio de um tremor corporal observável, o ser humano intermedeia estas funções físicas com pensamentos, sentimentos, emoções, lealdades invisíveis etc., produtos das duas outras camadas cerebrais que possui. Fica faltando uma ação de combate, de retomada do controle, que às vezes só é conseguida muitos anos depois, pela repetição ativa da violência ou abuso, desta feita no papel de abusador ou daquele que tem o controle (muitas adições são tentativas desastradas de simular controle).

A dramatização fornece a oportunidade desta ação faltante, permitindo aos músculos uma descarga segura desta necessidade corporal de retomada de controle. Saliento que o psicodrama foi uma das primeiras terapias corporais, e Moreno já dizia que o corpo se lembra daquilo que a mente esquece, sobretudo fatos que se passam nos primórdios da vida infantil, antes até do surgimento da linguagem. A melhor forma de recapturar memória de ações é por meio de métodos expressivos, que usam a pessoa inteira (corpo e mente) na ação.

A seguir descrevo, ilustrando com alguns casos[6], de que forma utilizo o psicodrama com este tipo de problemática.

NAS ENTREVISTAS 

Os pacientes que nos procuram não sabem o que é psicodrama, e muitos nem mesmo sabem o que é psicoterapia. É bastante provável que a grande maioria das pessoas leigas ache que apenas deva estar conosco e contar sua vida para que possamos lhes apresentar a solução para seus problemas mais íntimos. Além disso, há certo temor de nossa profissão, pois somos vistos como espécies de bruxos que podem ler almas, ou como pessoas arrogantes que se sentem superiores às outras.

Acredito que precisamos auxiliar nossos pacientes a saber quem somos, a ter confiança naquilo que fazemos, bem como ajudá-los a conhecer nossos instrumentos de trabalho. Confiança e conhecimento se constroem aos poucos, motivo pelo qual realizo no mínimo três entrevistas antes de aceitar um cliente para um contrato de psicoterapia.

Faço uma ou duas entrevistas verbais, um átomo social ¾ que introduz o psicodrama ao paciente ¾ e uma entrevista final devolutiva, onde sumarizo meu parecer e estabeleço o contrato de trabalho. Especificamente com o paciente adito realizo, quando possível, além das entrevistas verbais, três átomos sociais diferentes: um átomo social tradicional; um átomo social durante a adição (Figura 2); um átomo familiar de adições ou genograma das adições. (Figura 3).

Átomo social

Objetivos: explorar o contexto sociométrico no qual o paciente está inserido e treino para futuras dramatizações. É importante saber quem são seus egos-auxiliares naturais, aqueles que poderão apoiá-lo caso esteja deprimido, e, também, que espaços sociométricos estão faltando em seu átomo social. Às vezes percebemos uma pessoa adulta cercada da família primária, mas sem amigos, como se fosse uma criança aos cuidados de sua família.

Fazer um desenho do átomo social do cliente no seu protocolo e comparar o átomo social na entrada e na saída do processo terapêutico pode ser muito útil para a avaliação da eficácia do processo terapêutico.

ÁTOMO SOCIAL DURANTE A ADIÇÃO

FIG. 2 – ÁTOMO SOCIAL DURANTE A ADIÇÃO

 

GENOGRAMA DAS ADIÇÕES

Objetivos: pesquisar a presença de hábitos aditivos, compulsivos e/ou abusivos, geradores de vergonha no átomo familiar do paciente.

Ficha técnica: pede-se ao paciente que dê uma nota de 1 a 10, indicando a presença dos seguintes comportamentos em alguma pessoa de sua família: adições (bebida, drogas, compras, comida, trabalho etc.); perfecionismo; procrastinação[7]; raiva; vitimização, depressão, compulsão, suicídio ou qualquer outro hábito disfuncional.

 

GENOGRAMA DAS ADIÇÕES

FIG. 3 – GENOGRAMA DAS ADIÇÕES

Tanto o átomo social durante a adição quanto o genograma das adições auxiliam o terapeuta e o paciente a focalizarem a extensão dos danos e sua influência familiar; também ajudam a prevenir recaídas, pois concretizam, de forma até óbvia, as pessoas e situações que o adito deve evitar se não quiser recair na adição.

NO INÍCIO DA TERAPIA – discriminar o Verdadeiro Eu doAdito

a) Utilizando máscaras

V., 35 anos, descasada, obesa, dois filhos, é proprietária de uma empresa que enfrenta sérios problemas administrativos. Queixa-se de crises de bulimia noturna[8] que não consegue controlar. Nessas ocasiões, devora tudo o que aparece em sua frente, salgados, doces, frutas, sorvete etc.

“São momentos de loucura gastronômica”, diz ela, “engordo tudo o que perdi com dieta e exercícios.”

Logo nas primeiras sessões disse que gostaria de trabalhar[9]esta gorda louca que aparece de madrugada”. Pedi-lhe que montasse a cena onde aconteceu a última aparição da “louca”. Ela dispôs a cozinha de sua casa, na noite anterior. Estava sozinha, procurando dentro da geladeira e no armário tudo o que pudesse colocar para dentro.

Montamos detalhadamente o espaço da cozinha, e antes de começar a cena pedi-lhe um solilóquio, um minuto antes de ir para a cozinha:

(em solilóquio, um minuto antes): Estou triste, sozinha e com medo do que vai acontecer amanhã (refere-se a um problema grave na empresa).

T.: Ok, agora continue o solilóquio, mas vá para a cozinha, até a “gorda louca“ aparecer.

V .(em solilóquio): Quero dormir, apagar, não quero mais pensar o que será amanhã. Neste momento pára e diz para T.: A “gorda louca” começa a abrir a geladeira.

T.: Muito bom! Congela um pouco e escolhe uma máscara para ser esta “gorda louca”. Vai até a parede onde estão as máscaras penduradas e, cuidadosamente. pega um rosto gorducho, com bochechas vermelhas e pena na cabeça e diz: É esta aqui, sem dúvida!

T.: Vista ela um pouquinho e olha de longe esta cena: V. está sozinha, preocupada, triste e vai até a geladeira (T. coloca uma almofada para marcar o papel da paciente) e aí você aparece, entra em cenae fala com V.

(com a máscara no papel de gorda louca): Vim te ajudar, querida (de um jeito bem espalhafatoso), sou sua amiga querida, sempre te entupo de algo e faço dormir, vem que eu vou te ninar.

T.: Troque de lugar um pouco, tire a máscara (T. coloca a máscara sobre a almofada e V. assume seu próprio lugar à porta da geladeira).

(como V. para a “gorda louca”): Vai embora de mim, você não me ajuda. Eu preciso emagrecer para mudar minha vida e você não deixa, continuo gorda e sozinha, vai embora, eu te odeio!

Depois de mais algumas inversões de papel para aprofundar as características destes aspectos cindidos de V., T. pede a V. que saia da cena e observe, enquanto dispõe duas almofadas, uma com a máscara, outra sem, e repete o diálogo rapidamente (para não desaquecer o paciente). Depois diz:

“Estas duas partes são tuas V. , uma te traz para terapia, a outra te propõe a adição. Precisamos conhecê-las melhor e é o que faremos daqui para frente”.

b) Executando duplos da parte adita

É muito útil executar duplos da parte adita, ressaltando sobretudo o caráter paradoxal deste lado da personalidade.

Gorda louca: Traga-me sua dor, eu vou te dar alívio.

como duplo (de V. no papel de gorda louca): Traga-me sua dor, eu te darei a ilusão de alívio. 

Gorda louca: Eu te farei livre.

como duplo (de V. no papel de gorda louca): Serei o seu único patrão.

Gorda louca: Fique um tempo comigo, você pode confiar em mim. Em ninguém mais você pode confiar.

como duplo (de V. no papel de gorda louca): Passe um tempo comigo e eu te ensinarei a não confiar em ninguém. 

Gorda louca: Eu te ensinarei uma forma de não encarar os problemas. 

como duplo (de V. no papel de gorda louca): Você se livrará dos problemas por um tempo curto, mas eles não irão embora.

Com o tempo T. pode propor que o próprio paciente faça o duplo da parte adita, de forma a introjetar um raciocínio menos viciado pela lógica adita.

c) Escrevendo cartas

Escrever cartas é uma ótima forma de discriminar partes ¾ o escritor e o leitor. É meu recurso estratégico predileto para manter o aquecimento entre as sessões. No caso da adição, podemos sugerir que as cartas sejam escritas em várias direções:

  • Da parte adita para o self;
  • Do self para a parte adita;
  • Do corpo para a parte adita;
  • Do objeto da adição para o self;
  • De vários integrantes do átomo social para o self;
  • Da parte adita para as relações familiares mais íntimas etc.

 

d) Construindo metáforas da parte adita

42 anos, homossexual, homem extremamente bem-sucedido profissionalmente, tem um parceiro com quem mora há 20 anos. É “sexo adito”, apresentando compulsões eventuais de sair de madrugada, ter relações sexuais com pessoas desconhecidas, sem medidas de segurança.

“Como um vampiro à caça de sangue”, diz espontaneamente, referindo-se a esta parte ego- distônica de sua personalidade. Pedi-lhe que se esquecesse de si e jogasse o papel do vampiro, contando-me sua história, com início, meio e fim.

Eu era um jovem bonito diz, quando uma noite, andando despreocupadamente pela rua, fui atacado e mordido por um vampiro. Perdi a liberdade de ser quem eu queria e num vampiro me transformei. Ser vampiro não é uma escolha, é o meu destino.”

Peço-lhe para mostrar, com seu corpo, de que forma se sente como vampiro. Ele se dobra inteiro e diz: “Envergonhado”.

Chego mais perto, ponho minha mão em suas costas e lhe pergunto: ”Quando, antes, você já se sentiu assim, envergonhado?”. “Quando meu pai meu surrou na frente de todo mundo”, responde, referindo-se a uma cena ocorrida aos cinco anos de idade. Muitas vezes, ao longo de sua psicoterapia, trabalhamos esta cena para compreender o lado vampiro de sua personalidade.

Como vocês podem ver, metáforas são ótimos recursos para trazer à tona mundos cindidos, partes não assumidas da história de vida e do self dos pacientes. Permitem múltiplos usos na terapia, podendo ser trazidas espontaneamente, como no exemplo citado, ou construídas por meio da concretização de alguns comportamentos, sensações etc.

e) Cadeira vazia

O terapeuta coloca uma cadeira vazia na frente do paciente e sugere que ele imagine estarem lá sentadas pessoas ou partes suas com as quais deseja trabalhar. No caso da adição, a própria droga pode estar lá corporificada, bem como parceiros de adição, a parte adita da personalidade que domina o self, metáforas, sonhos etc.

O jogo de papéis se faz com a mudança de posição do paciente, ou seja, o paciente joga um papel, depois troca de cadeira e joga o outro; é um desempenho de papéis sem ação dramática. Essa técnica pode ser utilizada como um aquecimento inicial, seguido de um trabalho em cena aberta, ou como única técnica dentro de um trabalho psicodramático.

Gosto de pedir ao paciente para conversar com a droga, invertendo papéis e, depois de algum tempo, ser o duplo deste objeto ou prática aditiva, de forma a exteriorizar o não-dito, a consequência futura, e enfim, poder se apropriar, e não dissociar, da experiência integral.

O terapeuta pode jogar papéis também, se quiser, ou ficar apenas observando, entrevistando ambas as partes em confronto e apresentando um ponto de vista que não foi abordado.

(40 anos, fuma maconha o dia inteiro, no carro, no trabalho, na escola etc.) para a cadeira vazia onde a maconha está sentada: Eu preciso de você.

como maconha para C.: Eu também, somos um par inseparável.

para maconha: Mas eu estou perdendo aulas e posso perder o emprego.

como maconha para C.: Imagina, isto é papo deles, a gente saca melhor tudo, é mais profundo.

para maconha: Que nada, eu nem me lembro o que tenho que redigir hoje. Tenho que perguntar para o Luís.

como maconha para C.: Aquele babacão, C.D.F…

pede a C. para se levantar, coloca uma almofada no lugar de C. e diz: “Agora vou ser a maconha e você, fica atrás de mim, explicitando o que eu – maconha não estou dizendo”.

como maconha para almofada como C.: Luís é um babacão, cara de bocó, não sabe de nada.

como duplo de maconha: Fica só comigo, eu sou sua única amiga, não estude, não namore, só comigo você será feliz.

como C. para T.: É igual minha mãe que não gosta de nenhuma namorada minha. Parece que quer me segurar.

pede então uma cena recente com sua mãe na qual ela mostra este aspecto dominador, e a sessão continua com uma clássica montagem de cena, utilizando as técnicas corriqueiras do psicodrama.

Enfim, há muitas formas de se favorecer a discriminação destas partes em conflito, e acho extremamente útil passar um tempo da terapia processando esta cisão.

 

ADENTRANDO A PSICODINÂMICA DO PACIENTE – TRABALHO COM A CENA REGRESSIVA (Cukier, 1998: 67)

O psicodrama intrapsíquico (Pitzele, 1992) com cenas regressivas ou infantis é um poderoso recurso para se trabalhar com adições. Seu objetivo básico e ressignificar questões relacionadas à autoestima , discriminar dores de defesas infantis e avaliar a função do comportamento aditivo atual na história de vida do paciente.

No meu livro Sobrevivência Emocional descrevo em detalhes o manejo da dramatização com cenas regressivas. A Figura 4 mostra, esquematicamente, as fases que precisam ser percorridas neste trabalho, e a Figura 5 traz um roteiro para entrevistar o paciente em seu papel infantil.

 

CENA REGRESSIVA

     FIG. 4- ESQUEMA DO TRABALHO COM CENA INFANTIL

 


 Muitas sessões são efetuadas para processar o material obtido numa cena traumática infantil. Busca-se a comunicação da parte adulta da personalidade com a parte infantil, de forma a efetuar uma espécie de negociação e “redecisão”. A parte adulta do paciente precisa compreender esta criança interna, seu pensamento concreto, negociar com ela e obter alternativas que não comprometam sua saúde e felicidade na vida atual.

Uma dramatização com a cena regressiva esgota-se apenas quando o cliente:

  • Revive a dor da cena infantil;
  • Consegue entender como fez para sobreviver;
  • Percebe os problemas atuais causados por suas defesas infantis;
  • Treina novas formas de ação adultas e apropriadas, modificando sua conduta atual.

Obviamente, uma sessão de 50-60 minutos não pode dar conta de todos esses aspectos. Já fiquei cerca de três meses trabalhando uma mesma cena até compreender todas as conexões. Este trabalho representa o centro do furacão. É a bala mais importante do nosso gatilho, e não devemos queimá-la em vão, indo rápido demais.

Há muitas formas para terminar uma sessão no meio deste trabalho, deixando certos ganchos para reaquecer o paciente e continuar na próxima semana. Trata-se de tarefas estratégicas, tipo lição de casa, como por exemplo:

  • Traga escrito para a próxima sessão, com detalhes, o que se passou nesta cena e, se tiver uma foto sua dessa época, traga-a também;
  • Escreva uma carta para você mesmo quando criança. Cuide para escrever em linguagem infantil, pois quem vai ler é uma criança com menos de oito anos;
  • Faça uma colagem ou ache uma foto na internet do personagem que carrega sua defesa infantil;
  • Tire uma foto desta cena numa Polaroid imaginária e continuaremos com ela na próxima semana;
  • Escreva uma carta para os personagens desta cena (pai, mãe, irmão etc.). O que você diria hoje para eles a respeito do que acontecia na cena infantil?;
  • Imagine se o maior advogado do mundo pudesse tomar a defesa desta criança. Qual seria o seu argumento?;
  • O que a criança que você foi lhe pediria hoje, se pudesse?

Às vezes o cliente não quer continuar o trabalho na semana seguinte porque tem algo mais urgente para trabalhar ou porque não se sente preparado para entrar na velha angústia. A tarefa fica, então, adiada para quando ele puder retomá-la. Outras vezes o cliente não faz a tarefa, esquece ou não quer fazê-la sozinho. Podemos ajudá-lo a executá-la durante a sessão ou deixar que ele a traga na próxima vez. Sempre é bom discutir por que a tarefa não foi feita, pois ela é um acordo com o terapeuta que foi firmado e quebrado.

A seguir, descrevo um exemplo onde utilizo está técnica com um paciente adito de compras:

A., 35 anos, compulsivo por compras, chega a gastar dinheiro que não tem, adquirindo coisas que muitas vezes não usa. Em determinada sessão diz que quer trabalhar a “fissura que sente para ir a determinada loja em São Paulo, conhecida pelos seus produtos sofisticados, internacionais e extremamente caros”.

para A.: Ande pela sala e dê uma espreguiçada em seu corpo e vá pensando em quando sentiu esta fissura mais recentemente.

A.: Ontem depois de caminhar pela manhã.

T.: Onde você estava?

A.: Quando começou a fissura? 

T.:   É.

A.: Acabando de me pentear, depois do banho.

T.: Vamos montar o seu banheiro, o espelho… Onde é a porta deste aposento? [10] 

dispõe pacientemente as peças do banheiro, o armário, o espelho etc.

T.: Comece a se pentear e faça um solilóquio.

A.: Hoje estou bem, devo caber naquela calça de couro… Preciso comprá-la, vou até a loja, compro em dez vezes, posso até usar hoje à noite na festa da C.

T.: Respire fundo e agora feche os olhos e entre em si mesmo. Procure o que sente no seu corpo quando começa a pensar nisto.

A.: Minhas mãos tremem e transpiram, fico excitado.

T.: Deixe que esta excitação tome conta de seu corpo todo.

Começa a dar pulinhos, cada vez mais alto, ri…

T.: Muito bem, mais alto, pule forte… O que lhe lembra esta alegria? 

(imediatamente): Meu pai vindo me buscar de 15 dias em 15 dias. Eu o esperava na porta, íamos ao restaurante, ao boliche, ao shopping. Ele comprava tudo o que eu queria. Ele tinha mais grana que minha mãe. Minha mãe inclusive falava para eu pedir as coisas para ele.

T.: Algum dia em especial? 

A.: Muitos todos iguais, eu tinha pai a cada 15 dias.

T.: Vamos montar um desses dias aqui… Lembre de um momento desses dias.

A.: Comprando meu autorama. Era uma loja grande de brinquedos lá no alto da Lapa… Nós já tínhamos ido ver noutra semana… Fomos de manhã, no sábado. Depois montamos na casa dele, montamos a tarde toda, eu e ele estávamos muito felizes.

T.: Respire fundo A., feche os olhos, veja esta cena dentro de você e especialmente olhe para o seu rosto, seu corpo, sua idade. Quais são suas emoções neste momento?

A.: Alegria. Alegria!

T.: O que você precisava nesse momento da sua vida?

A.: Precisava que este momento não acabasse e que não fosse tão raro (chora)… Depois ele morreu quando eu tinha 12 anos e acabaram os 15 dias. 

T.: Respire fundo e volte para a cena dentro de você… O que você está aprendendo, neste momento da sua vida, que jamais esquecerá?

A.: Eu gosto do meu pai, mesmo que minha mãe não goste (chora); ele é bom para mim, ele gosta de brincar comigo (chora). 

(indo para o canto da sala aonde deixou minimizada a cena do banheiro e da fissura de compras): Olhe este homem de 35 anos aqui… Ele precisa ir a esta loja comprar este objeto caro… Você tem algo a falar para ele, você de nove anos, neste exato minuto?

A.: Seu pai não está lá, seu idiota (chorando)... Você só vai se ferrar. 

T.: Volte ao seu papel adulto A., em frente ao espelho… Olhe um minuto para este menino (aponta para a cena infantil na qual almofadas marcam os papéis)... Você acha que poderia entrar em contato com ele durante a semana, escrever-lhe uma pequena carta? Sinto que vocês precisam conversar. Parece que há alguma relação entre pai, autorama, fissura, calça de couro, loja chique… Pense nisso e vamos continuar na próxima sessão.

Na sessão seguinte, aquecidos pelo bilhete que o paciente, em seu papel adulto, escreveu para seu menino, retomamos na cena da morte do pai.

O paciente com 12 anos estava em frente caixão do pai, triste e bravo, pois a mãe e a nova mulher do pai criam um clima tenso no enterro.

para A.: O que você precisava neste momento da sua vida?

A.: Que minha mãe parasse de pensar em si e pensasse em mim, ficasse comigo.

T.: O que você aprende por não ter o que precisava? 

A.: Tenho que me virar sozinho a partir de agora, ninguém mais vai se importar comigo.

T.: O que isso quer dizer para um menino de 12 anos?

A.: Que tenho que procurar ganhar dinheiro e me dar tudo o que quiser.

para T. (sai do papel infantil e fala enquanto adulto): Comprar tudo o que quero é uma forma de fazer isto, não é?      

T.: Parece que sim. Comprar tudo o que quer representa ter um pai dentro de si, e é isto o que precisamos mudar.  

 

 

4- FINAL DA PSICOTERAPIA― SEDIMENTANDO NOVOS COMPORTAMENTOS E NOVA SOCIOMETRIA 

 O comportamento aditivo é uma conserva comportamental segura, e previsível, mas disfuncional e pouco criativa. O psicodrama pode fazer muito para desenvolver a espontaneidade do paciente, ajudá-lo a treinar novas condutas e se arriscar em novas sociometrias.

Técnicas como o role-playing, dramatizações de cenas temidas e jogos dramáticos auxiliam a revelar medos não conscientizados, comportamentos não desenvolvidos, papéis não jogados.

Adoro definir o meu consultório como um laboratório privilegiado e mágico, aonde saem pombos e lenços coloridos de um cartola preta , mais tarde transformados em sonhos novos , projetos futuros e novas relações. 

PALAVRA FINAL ― RECAÍDAS- RELAPSOS

 

Recaídas na adição são absolutamente normais. É recomendável que o terapeuta informe seu paciente que já espera por isto e que não deixará de ajudá-lo. Existe uma tendência, quase generalizada, de os pacientes largarem o processo terapêutico depois de recaídas. Isto acontece porque além de ficarem decepcionados com a terapia, sua autoestima fica muito baixa. Apresentam pensamentos catastróficos, de ruína pessoal, que, por seu turno, os leva de volta ao ciclo da adição.

É preciso prestar atenção nas situações de recaída porque elas se repetem e porque podemos prognosticá-las, caso observemos alguns indicadores. São sinais de possível relapso: o cliente faltar à terapia, apresentar muito remorso e vergonha, começar a culpar os outros por seus problemas, vitimizar-se, ficar devagar e repetitivo etc

Quem recai não recomeça do zero, pois já tem um caminho andado e precisa apenas recomeçar o controle. Fazer um prognóstico de recaídas logo no início do tratamento e prestar atenção em situações da vida que as favoreçam pode abreviar a retomada de controle.

Voltar à A.A.A. é também muito difícil na segunda vez, sobretudo por vergonha do grupo e por desacreditar na capacidade terapêutica dos encontros. A terapia individual precisa auxiliar nesse processo de retomada das reuniões grupais.

O compartilhar do terapeuta de seus próprios erros é desejável, pois pode dar um modelo para o paciente: “Se o meu médico ou terapeuta erra, pede desculpas e começa tudo de novo, eu também posso”. Erros não demolem uma pessoa, e o melhor a fazer é admiti-los prontamente e corrigir logo que possível, para que as negações e mentiras não se acumulem.

 

RECUPERAÇÃO

 

Recuperar-se de uma adição é quebrar a dependência interna do ritual aditivo e descobrir uma nova forma de viver, mais vulnerável a medos, conflitos e relações. Mudar a autoimagem é um dos aspectos mais difíceis, e a vergonha pelas ações cometidas no passado pode arruinar a recuperação. É preciso auxiliar o cliente a transformar a vergonha em culpa, gerando, então, ações reparadoras.

Aprender a admitir erros é uma das metas da terapia. Costumo ressignificar o que os pacientes entendem por natureza humana dizendo-lhes que “ser humano” é cometer erros e procurar acertar da próxima vez. Além do mais, nossa vulnerabilidade admitida gera um benefício secundário, que é estimular a empatia das pessoas e trazê-las para mais perto de nós. Pessoas onipotentes, que sabem tudo e não precisam de ajuda, em geral ficam sozinhas. É por meio de nossa natureza humana falha que nos conectamos com outros seres humanos.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

  • Black, Claudia (1990). Double duty – Food addicted. Denver, Mac Publishing.
  • Bradshaw, John (1977). Curando a vergonha que me impede de viver. Rio de Janeiro, Record/ Rosa dos Tempos.
  • Bustos, M. D. (1990). Perigo, amor à vista. São Paulo, Editora Aleph.
  • Bustos, M. D. (1992). “Novos rumos em psicodrama”, São Paulo, Editora Ática.
  • Bustos, M. D. (1994). Wings and roots”. In: Holmes, Paul; Karp, Marcia & Watson, Michael.
  • Psycodrama since Moreno. No Brasil, publicada por Leituras 2 – Companhia do Teatro Espontâneo.
  • Cannon Walter (1939) – The Wisdom of the Body, Nova York, Norton, Citado por Anne Ancelin Schutzenberger – “ Querer Sarar”, Editora Vozes, Rio de Janeiro, 1995.
  • Cukier, Rosa (1998) Sobrevivência emocional – As feridas da infância revividas no drama adulto. São Paulo, Ágora.
  • Dayton, Tian (2000). Trauma and addiction – Ending the cycle of pain through emotional literacy. Florida, Health Communications, Inc..
  • Ericson, E.(1976). Infância e sociedade. Rio de Janeiro, Zahar Editores.
  • Frankl, Viktor Emil (1998). Em busca de sentido: Um psicólogo no campo de concentração. 8a. ed. Rio de Janeiro, Vozes/Sinodal.
  • Le Doux, Joseph (1996). O cérebro emocional. Rio de Janeiro, Objetiva.
  • Levine P. A. (1999) – O Despertar do Tigre, Curando o Trauma – Editora Summus, S.Paulo.
  • MacLean D. Paul (1973)- A Triune Concept of the Brain and Behaviour ,University of Toronto Press, Canada
  • Mary W.S. (2004). The limits to talk – Psychotherapy Networker January/February.
  • Mellan, O. (1995). Overcoming overspending. Nova York, Walker and Company.
  • Perazzo, S. (1994). Ainda e sempre psicodrama. São Paulo, Ágora.
  • Pitzele, P. (1992). “Adolescentes vistos pelo avesso: psicodrama intrapsíquico”. In: Karp, Marcia & Holmes, Paul. Psicodrama – Inspiração e técnica. São Paulo, Ágora.
  • Twersti, J. A. & Nakken, C. (1999). Addictive thinking and the addictive personality. Nova York, JF Books.
  • Van der Kolk, B.; Mc.Farlane, A.; Weisaeth. L. (1996).Traumatic stress: the effects of  overwhelming experience on mind body and society. . Nova York, Guilford Press.

 

[1]. Não se enganem quanto à minha capacidade de ler a obra de Goethe em sua forma original. Realmente não possuo tal erudição . O drama de Fausto, porém, sempre me fascinou, e pude conhecer seu conteúdo em filmes, novelas, internet, onde ele é popularmente descrito.

[2]. “Verdadeiro eu” é utilizado aqui no sentido da personalidade existente antes da adição e “personalidade adita”   será o termo utilizado para a personalidade estruturada durante o processo aditivo. Propositadamente não utilizei os termos ego nem self, para não adentrar as definições psicanalíticas e acadêmicas sobre este tema.

[3]. Obsessões e compulsões estão relacionadas e, em geral, vêm acompanhadas. Ambas se referem a pessoas consumidas por algo irracional. Na obsessão, trata-se de uma ideia irracional e na compulsão, de um ato irracional. Obsessões e compulsões são como sugestões pós-hipnóticas; têm uma urgência irresistível.   Alguns autores argumentam, com propriedade, que comportamentos compulsivos são ações utilizadas para que a pessoa se mantenha ocupada e não experiencie sentimentos de ansiedade, tédio, depressão e angústia Elas fogem de si mesmas ocupando-se com algo além de si.

[4]. A maioria dos obesos, bulímicos e compulsivos come à noite e escondido, sem que ninguém veja.

[5] Situação estressante significa qualquer situação que leva o indivíduo a um estado de desespero, seja por estar lutando para preservar sua vida ou a de outrem que lhe é importante.

[6] Todos os nomes dos pacientes são fictícios e os próprios pacientes são mesclas de muitos casos. Utilizarei T. e a inicial fictícia do nome do paciente para designar terapeuta e paciente nos exemplos citados.

[7] Procrastinar: hábito de deixar sempre para depois tarefas que devem ser feitas agora.

[8] Bulimia nervosa: caracteriza-se essencialmente pela apresentação de compulsões periódicas e métodos compensatórios inadequados para evitar ganho de peso( purgação, jejum ou exercícios exagerados). Além disso, a auto-avaliação dos indivíduos com bulimia nervosa é excessivamente influenciada pela forma e peso do corpo

[9] Sempre pergunto, no começo das sessões, o que os pacientes querem trabalhar naquela sessão. Acredito que esta simples pergunta estimule a autonomia e responsabilidade do cliente pelo tempo que passaremos juntos.

[10] Sempre começo a montagem da cena pela porta de entrada do local onde ela acontece. Auxilia-me a definir o espaço e aquece o paciente porque ele percebe que eu realmente sei onde estão os móveis, janela etc.